Parte 2
"O que se vai esperar de pessoas despreparadas de todas as maneiras que se pode imaginar, sem recursos, que não se sentem vistas, nem ouvidas por absolutamente nenhum órgão competente? Que não têm saúde, que não têm educação, que não têm lazer nem entretenimento? Que não vêem reconhecidos seus poucos ou muitos potenciais, absolutamente desperdiçados? Essas pessoas acabam dizendo: ‘Deixa pra lá’. E se agente puder pensar em pessoas jovens, veremos que todo mundo quer ser alguém na vida. Então, se ele não pode ser um funcionário ou um empregado de algum lugar, ele vai ser o quê? A cidade não é segura e vai ficando cada vez mais distante de ter uma vida tranqüila. De novo, volta a pergunta: o que é mesmo que dá pra pensar? O que precisa acontecer para que seus gestores acordem, despertem, para ver que, se não cuidarem dessa população desfavorecida, isso pode virar uma coisa muito grande depois, muito complicada."
Ao analisar as oportunidades que são oferecidas à população, como retorno dos volumosos montantes da receita arrecadada em impostos e obrigações cobradas aos habitantes, a psicóloga põe em discussão a existência ou não de laços afetivos, de dedicação e fidelidade aos interesses públicos da parte dos políticos e da responsabilidade civil de quem habita a capital potiguar.
"Seria de se perguntar que capacitação tem esse gestor que aí está. Ele é o quê da cidade? Ele só nasceu aqui? Ele é uma pessoa que vive a cidade, vai nos bairros mais desfavorecidos, do mesmo jeito que circula na área mais nobre da cidade? Ele também circula lá nas Quintas, ele também circula lá no Alecrim, lá naquele Camelódromo, nos bairros menos favorecidos? Os jornais registram mortes diariamente, principalmente da população mais jovem, apesar de que, no Brasil, vê-se que, dos 15 aos 24 anos, aos 29, é uma população que, potencialmente, corre muito risco. É uma população que sai mais, se envolve mais. E os jovens, como não se sentem reconhecidos na cidade onde nasceram, o que eles vão procurar? Não têm muita perspectiva, não tem muita esperança. É como se eles tivessem perdido a esperança. Então o que vão fazer? Vão beber, encher a cara, daí as ocorrências com estragos para eles. Isto porque, na ausência do Estado, o tráfico chega, e chega oferecendo tudo o que a cidade poderia oferecer, e não oferece. A gente tem exemplos tenebrosos aí no Rio, dos jovens se identificarem tanto com essa história do tráfico, até porque não têm outra cosia para fazer. Quando aparece alguém que dá uma oportunidade, eles vão. Eles estão numa fase maravilhosa para aderir às coisas. Eles têm uma disponibilidade interna fantástica para poder aprender, para poder escutar, para poder copiar um modelo legal. Se tiver o modelo legal. Porque se não tiver, eles vão querer ser modelo de quem? Dos Escadinhas, do Zé Picadinho?" (Publicado no Caderno Encartes do Jornal de Natal de 16.01.06).

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