terça-feira, janeiro 30, 2007

Manda Bala leva prêmio em Sundance

Filme sobre corrupção
de políticos
brasileiros ganha
Festival de Sundance (EUA)

O filme Manda Bala, sobre a corrupção e a violência no Brasil, ganhou o prêmio do júri de melhor documentário do Festival de Sundance, no último sábado. O filme é dirigido por Jason Kohn, filho de uma brasileira. A fotografia é da paranaense Heloisa Passos, também premiada. Manda Bala acompanha um político que usa suafazenda para lavar dinheiro, um milionário que investe uma pequena fortuna para blindar seus carros e um cirurgião que reconstrói orelhas de vítimas de seqüestro mutiladas, para mostrar os efeitos da criminalidade no Brasil.
(Foto: Divulgação)

Manda Bala leva prêmio em Sundance

FILME AMERICANO SOBRE CRIMES
NO BRASIL ESTRÉIA EM SUNDANCE
"Manda bala" pretende mostrar ligação entre corrupção e violência.
Cineasta, que morou no país, teme reação dos brasileiros.
Matéria no site g1.globo.com/Noticias/PopArte
Seqüestrador em cena do documentário ‘’Manda bala’’ PARK CITY - O vínculo existente no Brasil entre corrupção política e cirurgias de reconstrução de orelhas está longe de ser evidente, mas um jovem cineasta americano atravessou o país para estabelecer essa conexão num documentário.
Em "Manda Bala", que concorre no Festival de Cinema de Sundance deste ano, Jason Kohn argumenta que a corrupção deslavada de políticos poderosos no norte pobre do Brasil alimenta uma espiral de criminalidade violenta no rico sul.
São Paulo, com seus 20 milhões de habitantes, é a capital brasileira dos seqüestros. Quadrilhas das favelas freqüentemente decepam as orelhas de suas vítimas para pressionar as famílias a pagar resgates, e as vítimas muitas vezes procuram cirurgiões plásticos para restaurar sua aparência.
Como diz a Kohn um seqüestrador, a maioria dos moradores de sua favela veio a São Paulo do norte e nordeste, movida pela falta de comida e trabalho.
Para Kohn, as coisas não seriam assim se os políticos não tivessem roubado tanto dinheiro.
"Fazer a ligação entre essas duas histórias foi basicamente um trabalho de cinco anos, e, num primeiro momento, a conexão não era nada óbvia", disse à Reuters o diretor de 28 anos depois da estréia de seu primeiro filme, feito com orçamento restrito.
O trabalho de Kohn está competindo com 15 outros documentários no maior festival americano do cinema independente, que termina em 28 de janeiro. O diretor espera fechar um contrato de distribuição esta semana.

Manda Bala leva prêmio em Sundance

VÍTIMAS E HERÓIS
"Manda Bala" conta histórias capazes de chocar até mesmo o público brasileiro.
O filme começa com uma visita à maior fazenda mundial de criação de rãs, onde Kohn discute com o dono um escândalo de corrupção que envolveu o desvio de dinheiro do governo que seria destinado a uma criação de rãs que nunca se concretizou.
O dono da fazenda se mostra extremamente incomodado ao falar do ex-governador do Pará e deputado federal eleito Jader Barbalho, acusado no escândalo da fazenda-fantasma.
Barbalho já foi acusado mais de uma vez de desvio de dinheiro público. Os promotores que o acusam dizem que não têm dúvidas quanto ao histórico de Barbalho de desvio de recursos, mas os tribunais não o condenaram. Em entrevista separada a Kohn, o próprio Barbalho abandona o local quando perguntado sobre o escândalo da criação de rãs.
Kohn também conduz o espectador para conhecer o trauma dos seqüestros, quando uma jovem vítima conta como teve sua orelha cortada e enviada à sua família com um pedido de resgate. Um vídeo mostra um seqüestrador cortando a orelha de um homem, obrigando-o a implorar para que sua família o salve.
Um jovem empresário fala das medidas de segurança que toma para evitar seqüestros, tais como usar carros blindados e direção tática. Ele diz que espera implantar um microchip debaixo de sua pele para rastrear seus movimentos.
Mas Kohn também identifica heróis. Um deles é um policial corajoso que localiza e resgata vítimas de seqüestros. Outro é um cirurgião plástico que convida a câmera a filmar uma reconstrução de orelha.
Kohn utilizou uma equipe técnica em sua maioria brasileira e empregou seu pai, que vive no Brasil. Mas ele prevê que os brasileiros se dividam em relação à visão que ele mostra do país.
"Uma brasileira que assistiu ao filme na sessão de ontem o elogiou muito", disse ele. "Mas existe uma reação brasileira muito típica que encontrei nos últimos cinco anos, enquanto fazia o filme: ‘Por que você está falando mal de meu país?"’.
Matéria do site g1.globo.com/Noticias/PopArte, disponível aqui.

Manda Bala leva prêmio em Sundance

Manda Bala!, documentário de Jason Kohn, aborda violência e corrupção no País
Flávia Guerra
Arte e Lazer, O Estadão, 29.01.07
SÃO PAULO - "Esse filme não é para ser exibido no Brasil". É com este aviso nada ortodoxo que começa Manda Bala! (Send a Bullet), documentário dirigido pelo americano Jason Kohn, que venceu o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Sundance, o mais importante festival de cinema independente do mundo, que foi encerrado no domingo em Park City, Utah, EUA.
Kohn se recusa a falar com jornalistas brasileiros. E, a julgar pelo aviso, não pretende exibir seu filme no país onde nasceu a idéia de seu filme, que, como antecipou o Estado, já está fazendo barulho por botar o dedo na ferida escancarada da corrupção e da impunidade brasileira.
No debate que se seguiu ao filme, o diretor foi questionado por Helvécio Marins Jr, cineasta mineiro e produtor de Acidente, que concorria no festival: Por que, diante da coragem de tratar da corrupção no Brasil, não sobra vontade para exibir este filme no País? "Porque meu pai mora no Brasil e seria perigoso", respondeu o diretor americano, que é filho de pai americano e mãe brasileira e fala português fluentemente. (Foto: Divulgação)

Manda Bala leva prêmio em Sundance

Equipe brasileira
Além do conteúdo polêmico, Kohn, que tem apenas 23 anos e se mudou para o Brasil durante as filmagens, fez questão de trabalhar com equipe brasileira em seu filme. A diretora de fotografia Heloísa Passos levou por Manda Bala! o Prêmio de Excelência em Cinematografia para Documentários. Os brasileiros que concorreram em Sundance e assistiram ao filme levantam prós e contras Manda Bala!. "Mesmo diante da justificativa, acho questionável. O filme consegue até criar situações e personagens bem interessantes. Mas começar assim não é nada bom", declarou Marins, que nesta semana participa do festival de Roterdã com seu curta Trecho.
Até ser exibido no festival, Kohn pouco falava de seu filme. As informações oficiais se restringiam a uma breve sinopse. Manda Bala! investiga a corrupção no Brasil, acompanhando três personagens-chave. Um deles é um político que, para lavar bilhões de dólares, abre uma fazenda de fachada. O outro personagem é um empresário que gasta milhões para blindar seus carros. Os depoimentos deste e de outros personagens que já foram seqüestrados revelam como a indústria do seqüestro é um ramo rentável no Brasil. O terceiro, ironicamente, é um cirurgião plástico, que reconstrói orelhas de vítimas de seqüestro.

Manda Bala leva prêmio em Sundance

Entrevista no YouTube
Em entrevista disponível no site YouTube, o diretor afirma que produziu Manda Bala! com foco principal em um escândalo político e conta histórias de corrupção. Não por acaso, Kohn ensina o beabá da lavagem de dinheiro no Brasil. E o exemplo dado é o caso do ranário (the frog farm) de Jader Barbalho, que foi acusado de desviar US$ 9 milhões da Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia), operando um orçamento de R$ 300 mil. "O "crime organizado chegou ao centro do poder" no Brasil. Jader fez o que queria na Sudam. Aprovava o que queria pelo valor que queria", declara o diretor. Em uma outra cena, surge um entrevistado brasileiro, não identificado, que fala em português e diz: "Sempre recebendo propina, sempre recebendo suborno".
"De fato. É um filme chocante. Grotesco. E não só pelo lado político, que é sórdido. Mas também pelas cenas de seqüestro. Mas é real. Kohn conseguiu vídeos caseiros feitos pelos seqüestradores. Há cenas de criança implorando para não ter a orelha decepada", conta Fellipe Gamarano Barbosa, jovem diretor brasileiro, que concorria no festival com seu curta Beijo de Sal.
"É totalmente estúpido decidir fazer um filme como esse, porque é difícil de realizar, difícil de vender", disse Kohn em entrevista ao site do Sundance Festival. "Quando negociamos com pessoas de uma sociedade tão injusta, que se beneficiam do desequilíbrio, é muito difícil contar a história, ninguém quer falar sobre isso. Eu pessoalmente gostaria de ter capacidade de continuar a fazer isso", diz o diretor.
"O Konh conversa com pessoas da fazenda de rãs e chega a entrevistar o Barbalho que, no momento em que é questionado sobre o ranário, levanta-se e vai embora dizendo que ‘eles teriam de conversar horas sobre aquele assunto’. É impressionante. E é baseado na impunidade que o Kohn fundamenta seu filme. No fato de que, tanto na corrupção quanto na indústria da violência, os crimes continuam sendo cometidos porque ninguém é punido no Brasil. O Barbalho foi preso e reeleito", completa Fellipe, que, assim como Kohn, mora e estudou cinema em Nova York. Outro entrevistado, também brasileiro, fala em inglês da violência nos grandes centros urbanos brasileiros. Diz que já teve um sócio e pessoas próximas seqüestradas na cidade de São Paulo. "Uma pessoa é seqüestrada todo dia em São Paulo. A situação está totalmente fora de controle".

Manda Bala leva prêmio em Sundance

Trilha desconcertante
A trilha sonora do filme também é totalmente brasileira, mas mesmo assim incomodou os diretores brasileiros. Como fundo das cenas que investigam a contradições do País, há Caetano, Mutantes, Tim Maia Racional, Jorge Mautner, Lo Borges, Jorge Ben...
“Mas, no final, o que se sente é que, mesmo ótimas, as músicas não têm nada a ver com o filme, ficam presentes full time... Ele deveria ter pesquisado Racionais, Chico Science e outras coisas mais modernas e que batessem mais com a proposta”, completa Marins.
“Talvez seja uma ironia. O fato de exibir imagens tão grotescas e se ouvir uma música tão maravilhosa de um mesmo país. Mas, assim como a primeira e a última cena, nunca saberemos se ele era um punk kid querendo chocar que acabou fazendo um belo filme ou um diretor sério que queria fazer um filme que conscientizasse”, comenta Gamarano.
A tal última cena é a bandeira do Brasil tremulando. “Eu disse a ele que a primeira cena era sensacionalismo e ele disse que iria cortar. Mas a última ele disse que vai manter porque é para alertar, não só brasileiros, mas estrangeiros, de que o que está escrito ali é, ironicamente, “Ordem e Progresso”, finaliza Gamarano Barbosa.
O Estadão, veja página aqui.
(Veja abaixo o vídeo do YouTube)

Sundance - Jason Kohn's MANDA BALA - A Brilliant New Film

sábado, janeiro 27, 2007

Quem criou Marcos Valério?

O operador,
de Lucas Figueiredo,

252 pp., Editora Record,

Rio de Janeiro, 2006; R$ 42,90
[do release da editora]
Quem é Marcos Valério? Como um modesto funcionário do Banco do Estado de Minas Gerais se transformaria em milionário em apenas sete anos, com uma fortuna visível de mais de 14 milhões de reais? Em O operador, o jornalista Lucas Figueiredo investiga os primeiros passos de Marcos Valério no mundo da corrupção e tráfico de influência, revelando que o valerioduto, na verdade, é uma criação do PSDB mineiro, que utilizou os "serviços" do operador para gerenciar os caixas dois de suas campanhas. E, mais surpreendente, Figueiredo mostra como o publicitário se reinventou no governo PT e conseguiu permanecer até hoje solto e milionário.

Quem criou Marcos Valério?


Repórter Lucas Figueiredo (foto)
O Operador
Como um modesto funcionário do Banco do Estado de Minas Gerais se transformaria em milionário em apenas sete anos, com uma fortuna visível de mais de 14 milhões de reais? Em O operador, o jornalista Lucas Figueiredo investiga os primeiros passos de Marcos Valério no mundo da corrupção e tráfico de influência, revelando que o valerioduto é uma criação do PSDB mineiro, que utilizou os "serviços" do Operador para gerenciar os caixas dois de suas campanhas. No livro, Lucas Figueiredo conta como o Marcos Valério conseguiu se recriar com a mudança de rumos na política brasileira e se aproximar da cúpula do governo PT, mantendo o seu esquema de lavagem de dinheiro. Por que o PT rasgaria sua história e cederia à corrupção? Que falcatruas do partido não foram investigadas? Por que só 18 parlamentares foram identificados se havia mais de 100 envolvidos no escândalo do mensalão? Quem são os grandes corruptores dessa história? Por que, mais uma vez, foram poupados? Por que Valério não foi preso? Por que continua milionário?