domingo, fevereiro 27, 2011

Ficou fácil deixar o rei nu

Ficou fácil deixar o rei nu
Gilberto Dimenstein
Folha de S Paulo
São Paulo, domingo, 27 de fevereiro de 2011
Uma série de sites está revolucionando o conceito que se tem de transparência, a exemplo do WikiLeaks
Foto: Sarney

ALIMENTADA POR DEZENAS DE milhares de pessoas e atualizada diariamente na internet, uma espécie de Bolsa de Valores informa publicamente quanto custa a maconha na maioria das cidades norte-americanas. Chega-se ao requinte de informar o preço no mercado de acordo com a qualidade do produto: ruim, regular e bom.
O leitor pode imaginar que ouvi essa "dica" de algum estudante num dormitório ou cafeteria aqui em Harvard, mas a verdade é que a informação foi transmitida numa solene sala de aula, quando se mostrava a comunicadores como as novas tecnologias impactam a produção e a distribuição de conhecimento. Depois desse exemplo, apareceu na tela o que poderíamos chamar de "bolsa do crime": trata-se de um programa que permite que se saiba de forma simples e ricamente ilustrada quais foram os crimes, divididos em suas várias modalidades, que ocorreram em cidades dos Estados Unidos nas últimas 24 horas. Entre eles está a venda de drogas.

Neste momento, em que as revoltas no Oriente Médio são atribuídas, pelo menos em parte, às novas tecnologias, que estão produzindo uma geração de jovens informados e conectados, a "bolsa da maconha" serve curiosamente também para ilustrar como o cidadão consegue se informar e se mobilizar sem depender tanto dos meios tradicionais de comunicação.

Aplicativos que não custam quase nada ou, em certos casos, nada mesmo já permitem que sejam editados em poucos minutos no celular, durante o calor dos acontecimentos, programas de rádio (Poddio Audio Editing) ou de televisão (First Video). Quem está acostumado com as pesadas e caras máquinas dos estúdios de rádio e televisão sabe muito bem o que isso significa.
Quem rala para degravar uma entrevista de horas sabe o valor de um programa recém-lançado (Voice Base) que coloca no papel em tempo real o que foi gravado no celular. A entrevista degravada pode ir direto para o Facebook ou para o Twitter.
Não é necessário mais digitar no celular enquanto se está dirigindo para saber onde fica determinado restaurante ou loja, basta apenas falar para receber o mapa com a localização (Vlingo).

Disseminam-se mecanismos para checar informações que podem aguçar o poder crítico do indivíduo e ajudar no trabalho de apuração dos jornalistas.
Uma série de sites está revolucionando o conceito que se tem de transparência, a exemplo do WikiLeaks, responsável pela divulgação de documentos secretos que provocou grande impacto em vários países. Aliás, nesta semana saiu um livro que detona a credibilidade do WikiLeaks, escrito por um de seus altos funcionários.
Sites permitem fazer facilmente extraordinários cruzamentos.



Enquanto se acompanha uma votação parlamentar ou uma proposta apresentada por um governante, é possível ver na tela do computador os mais diferentes tipos de ligação e de interesse de cada político, quais são seus negócios, quem dá dinheiro para a sua campanha, com quem tem obras ou contratos -e até suas viagens ou os presentes que ganha, inclusive de nações estrangeiras.
Um programa criado recentemente (Poligrapf) extrai trechos de uma notícia e informa detalhes sobre as entidades envolvidas em determinados eventos. Com isso, a notícia pode ficar mais transparente para o leitor.

Pode-se pensar que, com tudo isso, o jornalista é uma espécie em extinção. Muito pelo contrário. Com tanta informação disponível em qualquer canto, cada vez será mais necessário haver gente treinada para distinguir o que é essencial do que é supérfluo. Se algum leitor tiver alguma dica, envie que eu incluo.

PS- Preparei uma seleção com todos os sites mencionados nesta coluna (www.catracalivre.com.br) para que leitor possa um fazer exercício de cidadania digital e deixar alguns reis nus.

gdimen@uol.com.br

Ocidente quer se livrar de Kadafi

Ocidente quer se livrar de Kadafi
Tribuna do Norte
Natal, Domingo, 27 de fevereiro
Paisley Dodds - Associated Press

Londres - Quando Muamar Kadafi (Foto ao lado) disse ao mundo que era um homem mudado, alguns líderes mundiais reagiram com ceticismo. Outros, como o britânico Tony Blair, foram mais rápidos em ver os benefícios da reaproximação com o país, rico em petróleo. Agora, em um momento no qual o regime de Kadafi parece ruir, são levantadas perguntas sobre se a Grã-Bretanha, os Estados Unidos e outros países não foram muito rápidos em acolher um déspota volúvel ligado a grupos extremistas e a atos opressivos ao buscarem lucrativos acordos comerciais.

Esses acordos, no valor de bilhões de dólares, estão agora em risco na medida em que a Líbia se dirige para uma guerra civil. A decisão estratégica de construir ligações com líderes como Kadafi, o egípcio Hosni Mubarak e o tunisiano Ben Ali também ameaçam inflamar o sentimento contra o Ocidente no mundo árabe.

O papel de Blair foi particularmente vital na reabilitação internacional de Kadafi. O ex-primeiro-ministro britânico viajou para a Líbia em 2004 e conversou com Kadafi no interior de uma tenda beduína. Ele elogiou o encerramento dos programas de armas nucleares e químicas da Líbia e destacou a necessidade de novas alianças após os ataques de 11 de setembro de 2001 contra os Estados Unidos. Os acordos comerciais com a Grã-Bretanha começaram logo depois.

A Grã-Bretanha vendeu cerca de 40 milhões de libras (US$ 55 milhões) em equipamentos militares no ano encerrado em 30 de setembro de 2010, segundo estatísticas do Ministério de Relações Exteriores britânico. Dentre os itens vendidos estão fuzis de precisão, veículos a prova de balas, munição para contenção de multidões e gás lacrimogêneo. “O que o Ministério de Relações Exteriores pensou que o coronel Kadafi faria com fuzis de precisão e granadas de gás lacrimogêneo? Caças toupeiras?”, questionou o jornal britânico The Guardian.

Embora o atual governo britânico, liderado por David Cameron, tenha revogado dezenas de licenças de exportação para a Líbia após os episódios de violência no país, muitos dizem que os mesmos equipamentos e armas que a Grã-Bretanha vendeu para a Líbia estão sendo usados contra o povo do país.

O Serviço Especial Aéreo (SAS, pela sigla em inglês) da Grã-Bretanha também participou de recentes treinamentos para soldados líbios nos setores de contraterrorismo e vigilância. Robin Horsfall, ex-soldado da SAS, disse na época que o treinamento foi um erro. “Pessoas vão morrer como resultado desta decisão”, advertiu ele.

Desde que a Escócia libertou Abdel Baset al-Megrahi - o único condenado pelo ataque a bomba contra o avião que fazia o voo 130 da Pan Am, que explodiu sobre a cidade de Lockerbie, Escócia -, legisladores norte-americanos têm acusado a Grã-Bretanha de apoiar a libertação do líbio em troca de acordo com petróleo.

Jogo empresarial leva EUA a calar sobre relatórios

Em 2008, o ex-presidente George W. Bush enviou sua principal diplomata, Condoleezza Rice, para a Líbia para conversar com Kadafi. Ela disse que a viagem era “histórica” e afirmou que teve de “superar muita dificuldade, o sofrimento de muitas pessoas que nunca serão esquecidas ou acalmadas”. No mesmo ano, a texana Exxon Mobil assinou um acordo de exploração com a Corporação Nacional de Petróleo da Líbia para explorar hidrocarbonetos na costa do país norte-africano.

A alta comissária da Organização das Nações Unidas para os direitos humanos, Navi Pillay, lembra que líderes norte-americanos a desencorajaram a pressionar a Líbia por causa dos relatórios ruins sobre direitos humanos. “Nos últimos dias (do governo Bush) eu me encontrei com alguns representantes da administração norte-americana”, contou Pillay em entrevista à Associated Press. “Eles disseram que os relatórios da Líbia estavam bem e que não precisaríamos entrar neste assunto.”

Muitos na comunidade de inteligência disseram, na época, que viam a suposta transformação de Kadafi com otimismo cauteloso. “Ele dizia que queria combater o extremismo, o que encaramos mais positivamente do que os norte-americanos”, disse Ilan Mizrahi, que já foi o número dois no comando da agência de inteligência israelense, o Mossad. “Mas também dissemos para serem cautelosos com esses momentos de sanidade.”

Poucos líderes europeus escaparam da ira de editoriais de jornal ou de embaraçosas montagens com fotografias com o excêntrico líder. Os ex-primeiros-ministros britânicos Blair e Gordon Brown, o presidente francês Nicolas Sarkozy, o então chanceler alemão Gerhard Schroeder e o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi estão entre eles. O encontro do Ocidente com Kadafi e outros já irritou alguns manifestantes, que sentiram que as grandes potências mantiveram os opressores no poder e os enriqueceram, enquanto enganavam as pessoas comuns sobre as riquezas que as petrolíferas estrangeiras receberam.

Para a Alemanha, a visita de 2004 de Schroeder ocorreu depois de um acordo da Líbia para pagar indenização para as vítimas de um ataque a bomba em 1986 contra uma discoteca, em Berlim Ocidental. A França também cortejou Kadafi em 2007. Mas para a Grã-Bretanha a revolta na Líbia tem sido ainda mais embaraçosa. Kadafi foi fornecedor do Exército Republicano Irlandês e seguidamente ligado ao ataque em Lockerbie, embora nunca tenham surgido provas para as acusações. Ainda assim, quando o homem responsabilizado pelo ataque foi libertado em 2009 por razões humanitárias, por padecer de um câncer em estado terminal, Kadafi e seu filho fizeram uma extravagante festa de boas-vindas em sua casa.

População se revolta e prefeito foge da cidade

População se revolta
e prefeito foge da cidade

Tribuna do Norte
Natal (RN), 27 de Fevereiro de 2011

Salvador (AE) - Uma onda de protestos contra a violência em Valença, cidade litorânea a 255 quilômetros ao sul de Salvador, levou o prefeito da cidade, Ramiro Campelo de Queiroz (PR, na Foto), a fugir e procurar abrigo na capital baiana. As manifestações começaram na tarde de quinta-feira (24), na frente da Câmara Municipal. O estopim foi a demora para a liberação para sepultamento do corpo de um jovem de 25 anos que havia sido assassinado dentro de casa, durante um assalto, na noite anterior.

Revoltada, a população passou a cobrar das autoridades mais segurança e a contratação de médicos-legistas. Em seguida, manifestantes atearam fogo em pneus nas ruas centrais, quebraram vidros e portas de lojas, da câmara e da prefeitura, além de fazer saques em pelo menos dez estabelecimentos comerciais - alguns deles de propriedade da família do prefeito, que tem uma concessionária de veículos e uma rede de lojas de móveis e eletrodomésticos.

Temendo sofrer ataques em casa - um imóvel térreo de muros baixos -, Queiroz pediu escolta policial e deixou a cidade junto com a família, rumo a Salvador, pelo ferryboat. Segundo a delegada Glória Isabel Santos Ramos, da 5ª Coordenadoria Regional da Polícia Civil (Coorpin), responsável por Valença, as manifestações foram contidas ainda na noite de quinta-feira (24). Três pessoas foram detidas em flagrante, por furto. Os objetos, segundo a polícia, foram recuperados.

Valença registra índice de homicídios semelhante ao de Salvador, em torno de 60 casos para cada grupo de 100 mil habitantes, e as notificações têm mantido ritmo crescente. Em janeiro, foram 11 assassinatos, ante sete no mesmo período do ano passado.

Segundo o Mapa da Violência 2011, a Bahia foi o segundo Estado onde o número de homicídios mais avançou no País entre 1998 e 2008, com aumento de 237,5%, atrás apenas do Maranhão (297%). No período, o Estado saltou da 22ª posição entre os mais violentos, para a oitava posição.

Povo paga R$ 1,1 milhão por ano por cada deputado

Cada deputado estadual
custa R$ 1,1 milhão por ano
Tribuna do Norte
Natal (RN), 27 de Fevereiro de 2011
Maria da Guia Dantas - repórter

Ilustração:
Deputado Ezequiel Ferreira de Souza (ao lado)
Cada um dos 24 deputados estaduais na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte custa aos cofres públicos do Estado cerca de R$ 1.157 milhão ao ano. Um pouco mais ou um pouco menos. A imprecisão deve-se as dificuldades enfrentadas pela reportagem – o Ministério Público também procura saber os números – em levantar os valores com salários pessoais, verbas indenizatórias, ajudas de custos e gratificações de gabinetes que, de forma direta e/ou indireta, podem compor os custos de manutenção de um deputado.

O valor citado é a soma anual dos salários mensais de R$ 20.043,68 (veja abaixo), do limite das 12 parcelas de R$ 24.057,90 correspondentes à verba indenizatória e aos R$ 43.708,20 (salários e 13º) destinados ao pagamento dos nove cargos comissionados à disposição de cada gabinete. Assim como na maioria dos Legislativos do país, os parlamentares potiguares têm direito a quinze salários ao ano, incluindo o décimo terceiro. As duas remunerações a mais correspondem às ajudas de custo anual, recebidas no início e no fim de cada legislatura com valores correspondente ao valor do subsídio mensal.

Contabilizando-se valores das fontes de despesas citadas (salários, verbas e cargos) chega-se as seguintes cifras anuais: R$ 300.655,60 do total de salários dos próprios deputados; R$ 288.694,80 de verba indenizatória; e R$ 568.206,60 dos cargos comissionados. O total por ano é de R$ 1.157.556,60.

Ao ingressar no Legislativo cada deputado dispõe, para livre nomeação nos gabinetes, de nove cargos comissionados. Em regra, eles têm direito a um motorista (R$ 1.194,21), um agente administrativo (R$ 1.393,20), um técnico em processamento de dados (R$ 3.959,23), um secretário de gabinete (R$ 5.927,50), um oficial de gabinete (R$ 5.927,46), dois assistentes políticos (R$ 5.879,02), um assessor parlamentar (R$ 6.774,21) e um chefe de Gabinete (R$ 6.774,35).

Contudo, há cerca de oito anos uma resolução interna deu aos parlamentares o direito de “dividir por três cada um dos cargos”. A partir daí, os gabinetes são ocupados por até 27 servidores em comissão. O valor de R$ 43.708,20/mês, no entanto, não foi alterado. Os salários passaram a ser divididos, somados, rateados ou empregados segundo a fórmula que possa ser acertada entre o deputado e os nomeados, desde que não ultrapassem o valor nominal para cada função e o total por gabinete.

A remuneração dos deputados está definida no artigo 47º do Regimento Interno da Assembleia Legislativa (AL), assim como a existência da verba indenizatória. Os cargos em comissão são disciplinados através de resolução interna da Mesa Diretora. Não é segredo, entre os funcionários dos gabinetes e o pessoal efetivo da Assembléia Legislativa, a existência de “gratificações” - algumas nos contracheques, outras oficiosas – que variam entre R$ 500,00 e R$ 1.500,00 distribuídas segundo o critério de cada deputado. Comprová-las? Só com a ajuda da direção da Assembléia.

A TRIBUNA DO NORTE enviou por três ocasiões uma serie de questionamentos à assessoria da AL sobre as regras salariais para os parlamentares, mas não obteve respostas. Entre outras questões, a reportagem perguntou se além dos itens de custos já citados aqui, os deputados têm outras formas de suplementação orçamentária para os gabinetes.

Quando questionados sobre os custos de cada parlamentar, deputados costumam encontrar explicações. Para o deputado José Dias (PMDB), o custo dos parlamentares do Rio Grande do Norte “é compreensível”. José Dias considera que os benefícios diretos são da população de todo o Estado e não dos deputados isoladamente. “Não somos nós. É o Rio Grande do Norte”. Ele argumenta que o condenável está na “distorção, malversação ou jogo extremamente vergonhoso”.

O deputado Fernando Mineiro (PT), ressaltou que um dos benefícios disponíveis, a chamada verba indenizatória, não pode ser contabilizada como sendo uma remuneração dos parlamentares, entretanto é aceito que despesas pessoais como hospedagem, alimentação componham os gastos pelos quais os deputados podem pedir ressarcimento. Despesas indiretas e mais subjetivas, como gastos com pesquisas e consultorias, também são aceitas.

Somar e dividir as despesas com salários parlamentares, com ajudas de custos e com cargos comissionados pelas 24 vagas de deputados existentes no Legislativo potiguar também é considerado “injusto”. “Nós estamos aqui representando o povo, somos advogados do povo, então essa divisão deveria ser feita comparando-se a população do Estado e não o número de deputados”, acrescenta o líder do PMDB, José Dias.

domingo, janeiro 16, 2011

A verdade ganhará sempre


A verdade ganhará sempre

A WikiLeaks cunhou um novo tipo do jornalismo: o jornalismo científico. Trabalhamos com outros serviços informativos para trazer as notícias às pessoas, mas também para provar que é verdade.
Por Julian Assange, publicado no The Australian
Artigo | 7 Dezembro, 2010 - 19:00
Foto dos senadores do RN Garibaldi Alves Filho, José Agripino Maia e Rosalba Ciarlini, fonte.

Em 1958 o jovem Rupert Murdoch, então proprietário e editor de The News de Adelaide, escreveu: “na corrida entre segredo e verdade, parece inevitável que a verdade ganhe sempre”.

A sua observação talvez reflectisse a revelação do seu pai, Keith Murdoch, de que as tropas australianas estavam a ser sacrificadas desnecessariamente nas costas de Gallipoli por comandantes britânicos incompetentes. Os britânicos tentaram calá-lo, mas Keith Murdoch não se deixou silenciar e os seus esforços levaram ao fim da campanha desastrosa de Gallipoli.

Quase um século depois, a WikiLeaks está também a publicar destemidamente factos que precisam de ser publicados.





Cresci numa cidade rural de Queensland, onde as pessoas diziam o que lhes ia na alma de forma franca. Desconfiavam dum governo grande, como algo que pode ser corrompido se não for vigiado cuidadosamente. Os dias negros da corrupção no governo de Queensland, antes do inquérito Fitzgerald, são testemunho do que acontece quando os políticos amordaçam os meios de comunicação para não informarem a verdade.

Essas coisas calaram-me fundo. A WikiLeaks foi criada em torno desses valores centrais. A ideia, concebida na Austrália, era usar tecnologias Internet em novas formas de informar a verdade.

A WikiLeaks cunhou um novo tipo do jornalismo: o jornalismo científico. Trabalhamos com outros serviços informativos para trazer as notícias às pessoas, mas também para provar que é verdade. O jornalismo científico permite-nos ler uma história nas notícias, a seguir clicar online para ver o documento original em que é baseada. Dessa forma podemos ajuizar por nós mesmos: a história é verdadeira? O jornalista informou-nos com precisão?

As sociedades democráticas precisam de meios de comunicação fortes e a WikiLeaks é uma parte desses meios. Os meios de comunicação ajudam a que o governo se mantenha honesto. A WikiLeaks revelou algumas verdades difíceis sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão e sobre histórias incompletas da corrupção corporativa.

Houve quem dissesse que sou anti-guerra: para que conste, não sou. Às vezes as nações têm de ir à guerra, e há guerras justas. Mas não há nada mais errado do que um governo mentir ao seu povo sobre essas guerras e depois pedir a esses mesmos cidadãos e cidadãs que arrisquem as suas vidas e os seus impostos com essas mentiras. Se uma guerra for justificada, então digam a verdade e as pessoas decidirão se a apoiam.

Se você tiver lido alguns dos diários de guerra do Afeganistão ou do Iraque, algum dos telegramas da embaixada dos Estados Unidos ou alguma das histórias sobre as coisas que a WikiLeaks reportou, pondere como é importante para todos os meios de comunicação serem capazes de informar estas coisas livremente.

A WikiLeaks não é o único editor dos telegramas da embaixada dos Estados Unidos. Outros serviços informativos, incluindo o britânico The Guardian, o The New York Times, o El Pais em Espanha e a Der Spiegel da Alemanha publicaram os mesmos telegramas editados.

Mas é a WikiLeaks, como coordenador desses outros grupos, que apanhou com os ataques e acusações mais maldosos do governo dos Estados Unidos e dos seus acólitos. Fui acusado de traição, embora seja australiano, não um cidadão dos EUA. Houve dúzias de apelos graves nos EUA para que eu fosse "retirado" por forças especiais dos Estados Unidos. Sarah Palin diz que devo ser “acossado como Osama bin Laden”, um projecto de lei republicano apresenta-se ao Senado dos Estados Unidos tentando que me declarem “uma ameaça transnacional” e se desembaracem de mim consequentemente. Um conselheiro do gabinete do Primeiro-Ministro canadiano apelou à televisão nacional para que eu fosse assassinado. Um blogger americano pediu que o meu filho de 20 anos, aqui na Austrália, fosse raptado e mal-tratado por mais nenhuma razão senão para apanharem-me.

E os australianos devem observar sem qualquer orgulho a alcoviteirice ignominiosa desses sentimentos pela Primeira-Ministra Gillard e pela Secretária de Estado dos Estados Unidos Hillary Clinton, que não tiveram uma palavra de crítica para com os outros meios de comunicação. Isto acontece porque o The Guardian, o The New York Times e a Der Spiegel são antigos e grandes, enquanto a WikiLeaks é ainda jovem e pequena.

Somos os da mó de baixo. O governo de Gillard está a tentar matar o mensageiro porque não quer a verdade revelada, incluindo a informação dos seu próprios feitos diplomáticos e políticos.

Houve alguma resposta do governo australiano às numerosas ameaças públicas de violência contra mim e outro pessoal da WikiLeaks? Poder-se-ia ter pensado que um primeiro-ministro australiano iria defendendo os seus cidadãos contra tais coisas, mas houve apenas reclamações não inteiramente genuínas de ilegalidade. Da Primeira-Ministra, e especialmente do Procurador-Geral, espera-se que tratem os seus deveres com dignidade e acima das querelas. Fiquem descansados, esses dois vão tratar de salvar a sua própria pele. Não o farão.

Sempre que a WikiLeaks publica a verdade sobre abusos cometidos por agências dos Estados Unidos, os políticos australianos entoam um coro provavelmente falso com o Departamento de Estado: “Vai arriscar vidas! Segurança nacional! Vai pôr as tropas em perigo!” Depois dizem que não há nada importante no que a WikiLeaks publica. Não podem ser verdade ambas as coisas. Qual delas é?

Não é nenhuma. A WikiLeaks tem uma história de publicação com quatro anos. Durante esse tempo mudámos governos inteiros, mas nem uma pessoa, que se saiba, foi mal-tratada. Mas os EUA, com a conivência do governo australiano, mataram milhares só nestes últimos meses.

O Secretário da Defesa dos Estados Unidos Robert Gates admitiu numa carta ao Congresso dos EUA que nenhuma fonte de informação ou métodos sensíveis tinham ficado comprometidos pela revelação dos diários de guerra afegãos. O Pentágono afirmou que não houve nenhuma prova de que os relatórios da WikiLeaks tinham levado alguém a ser mal-tratado no Afeganistão. A NATO em Cabul disse à CNN que não pôde encontrar nem uma pessoa que precisasse de protecção. O Departamento Australiano de Defesa disse o mesmo. Nenhuma tropa australiana ou fontes foram prejudicadas por nada que tivéssemos publicado.

Mas as nossas publicações estão longe de não ser importantes. Os telegramas diplomáticos dos Estados Unidos revelam alguns factos alarmantes:

– Os EUA pediram aos seus diplomatas que roubassem material humano pessoal e informação a funcionários da ONU e a grupos de direitos humanos, incluindo ADN, impressões digitais, exames de íris, números de cartão de crédito, senhas de Internet e fotos de identificação numa violação de tratados internacionais. Os diplomatas australianos da ONU presumivelmente podem ser visados também.

– O rei Abdullah da Arábia Saudita pediu que os representantes dos Estados Unidos na Jordânia e no Bahrain exigissem que o programa nuclear do Irão fosse detido por qualquer meio disponível.

– O inquérito britânico sobre o Iraque foi ajustado para proteger os “interesses dos Estados Unidos”.

– A Suécia é um membro encoberto da NATO e a partilha de informação de espionagem é escondida do parlamento.

– Os EUA estão a jogar duro para conseguir que outros países recebam detidos libertados da Baía Guantánamo. Barack Obama aceitou encontrar-se com o Presidente Esloveno apenas se a Eslovénia recebesse um preso. Ao nosso vizinho do Pacífico Kiribati foram oferecidos milhões de dólares para aceitar detidos.

Na sentença que se tornou um marco sobre o caso dos Documentos do Pentágono, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos disse que “só uma imprensa livre e sem restrições pode expor eficazmente as fraudes do governo”. A tempestade que gira hoje em volta da WikiLeaks reforça a necessidade de defender o direito de todos os meios de comunicação a revelar a verdade.

7/12/2010

Julian Assange é redactor-chefe da WikiLeaks.

Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net

WikiLeaks: Terramoto sacode embaixadas dos EUA

Atacado pelo escândalo que a cada dia parece gerar nova fornada de embaraços e incómodos, o governo dos EUA está a ser forçado a uma reforma em todos os seus cargos diplomáticos, pessoal militar e agentes de inteligência. Por Guy Adams e Kim Sengupta, The Independent.
Artigo | 6 Dezembro, 2010 - 18:56
Foto: fonte
WikiLeaks: Terramoto sacode as embaixada dos EUA em todo o mundo
O presidente Dmitry Medvedev da Rússia é descrito num dos telegramas como “o Robin do Batman [primeiro-ministro da Rússia Vladimir] Putin”.

Atacado pelo escândalo que a cada dia parece gerar nova fornada de embaraços e incómodos, o governo dos EUA está a ser forçado a empreender ampla reforma em todos os seus cargos diplomáticos, pessoal militar e agentes de inteligência, cujo trabalho afinal está exposto aos olhos do mundo, depois das fugas, pela página WikiLeaks, dos telegramas diplomáticos dos EUA.

Ontem, o governo Obama enfrentava grave crise no seu serviço diplomático, entre ondas sucessivas de provas de que a continuada publicação de comunicados pressupostamente confidenciais e protegidos tornará impossível – se não perigoso – o trabalho diplomático, tal como tem sido feito até aqui por funcionários do Departamento de Estado em todo o mundo.

Apenas 1.100 dos cerca de 250 mil documentos secretos que a WikiLeaks recebeu e divulgou já foram publicados. Portanto, aumenta o medo de que prosseguirá, nos próximos meses, a divulgação de revelações que podem desestabilizar as relações dos EUA com praticamente todos os seus aliados-chave, inflamando as tensões com governos já hostis no Oriente Médio, no Extremo Oriente e em outras regiões.

“No curto prazo, já estamos paralisados, sem poder dar um passo” – disse à Agência Reuters um diplomata sénior dos EUA. Para a mesma fonte, serão necessários no mínimo cinco anos para reconstruir relações de confiança em todo o mundo. “A situação está péssima. Dificilmente poderia estar pior. Não há exagero algum no que lhe digo. Falando claramente, ninguém quer falar connosco. (...) Há gente que continua obrigada a falar connosco, sobretudo governos e representantes oficiais. Mas mesmo esses perguntam antes de qualquer contacto: “Vocês vão escrever sobre o que discutirmos aqui?”

Há informações de que o Pentágono, a CIA e o Departamento de Estado estão a listar todos os funcionários do serviço diplomático que assinaram os telegramas mais comprometedores e que mais problemas criaram, de entre os que já foram publicados por WikiLeaks. Todos esses terão de ser removidos dos postos em que estão, em todos os casos os postos mais estrategicamente importantes da diplomacia norte-americana.

Entre os diplomatas cujas opiniões privadas foram divulgadas para o mundo, para grande embaraço dos EUA, está Gene Cretz – embaixador dos EUA na Líbia, que, em 2009, escreveu o hoje já famosíssimo telegrama no qual informa ao governo dos EUA que Muammar Kaddafi não viaja sem a companhia de “uma voluptuosa loura”, sua enfermeira ucraniana.

O actual enviado dos EUA à ONU também tem sido criticado, depois da revelação de que Hillary Clinton o instruiu a coleccionar números de cartões de crédito, de passes para viagens aéreas, números de telefones móveis, endereços de e-mails, senhas e outros dados de diplomatas estrangeiros e altos funcionários da ONU, inclusive do secretário-geral Ban Ki-moon.

A dificuldade para o serviço diplomático dos EUA é que os autores de vários dos mais importantes telegramas divulgados pela organização WikiLeaks são os mais experientes do corpo diplomático norte-americano, e será difícil, se não impossível, substituí-los.

Até agora, nenhum dos países afectados pelas fugas solicitou a remoção de qualquer diplomata ou funcionário do serviço diplomático dos EUA.

“Essa é outra face dessa tragédia”, disse alto funcionário da segurança nacional ao blogue The Daily Beast que, na sexta-feira, detalhou a extensão da crise nas embaixadas dos EUA e noticiou que a re-alocação dos diplomatas afectados já está planeada e acontecerá ao longo dos próximos meses. “Teremos de deslocar alguns dos nossos melhores servidores, que sempre representaram muito bem os EUA, capazes das melhores análises –, só porque se atreveram a escrever a verdade sobre países nos quais servem.”

Entre os governos estrangeiros que já se manifestaram ofendidos pelo conteúdo de um ou outro dos telegramas divulgados estão supostos aliados como França, Itália e Turquia, cujo primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan ameaçou processar o ex-embaixador dos EUA Eric Edelman por telegrama no qual o embaixador sugere que Erdogan teria dinheiro em bancos suíços.

Velhos inimigos dos EUA também estão gravemente incomodados. O presidente Dmitry Medvedev da Rússia é descrito num dos telegramas como “o Robin do Batman [primeiro-ministro da Rússia Vladimir] Putin”. Cuba e Venezuela são reunidas num “Eixo da Falsidade” em documento divulgado no fim de semana.

Quando os primeiros telegramas foram divulgados, a Casa Branca condenou a divulgação, sob o argumento de que “poria em risco os nossos diplomatas, profissionais de segurança e todos os que, em todo o mundo, se aproximam dos EUA para promover a democracia e governos mais transparentes”.

Apesar de até agora nenhum país ter requerido a expulsão dos diplomatas responsáveis pelos telegramas que mais incómodo provocaram, espera-se que comece em breve um movimento para declará-los “Persona Non Grata” – os governos declaram que um ou outro funcionário estrangeiro não é bem-vindo a um ou outro país; é acção que, na prática, leva à remoção. “Pela nossa avaliação, é só uma questão de tempo”, disse um funcionário do Departamento de Estado ao blogue The Daily Beast.

Fontes diplomáticas disseram ao The Independent que não há planos para deslocar pessoal diplomático, porque a deslocação sugeriria que tivessem cometido algum erro e comprometeria a carreira dos diplomatas.

Tensões com os Estados árabes

Um dos telegramas recentemente divulgados revela que Hillary Clinton criticou o governo saudita, dizendo que o país é a principal fonte de financiamento para grupos militantes islâmicos, e que os políticos sauditas não se decidem a interromper o fluxo de dinheiro. Num telegrama de Dezembro de 2009, a secretária de Estado diz a diplomatas norte-americanos que “a acção de Riad tem sido limitada” [para interromper os fluxos de dinheiro para os Talibãs e outros grupos que atacam no Afeganistão, no Paquistão e na Índia]. E acrescentou que o Hamas conseguiu milhões na Arábia Saudita, sobretudo de peregrinos que vêm para o Hajj e o Ramadã. A nota também fala do Qatar, do Kuwait e dos Emirados Árabes Unidos como fonte de dinheiro para os militantes; com destaque para o Qatar – “o pior da região” – por não cooperar com Washington.

Artigo de Guy Adams e Kim Sengupta, publicado no The Independent, traduzido pelo colectivo Vila Vudu/Rede Castorphoto. Traduzido e Publicado em www.esquerda.net

Julian Assange: impossível travar 'Cablegate'

Porta voz do Wikileaks assegura que o arquivo de 250 mil telegramas foi espalhado por mais de 100 mil pessoas, num formato encriptado. “Se alguma coisa nos acontecer, as partes mais importantes do arquivo serão divulgadas automaticamente”.
Artigo | 3 Dezembro, 2010 - 20:01
Julian Assange. Foto de bbwbryant, FlickR
Fonte do texto:www.esquerda.net

Julian Assange, porta voz do Wikileaks, assegurou esta sexta-feira que não há a menor possibilidade de impedir a divulgação do Cablegate, o arquivo de 250 mil telegramas da diplomacia norte-americana. Isto porque, explicou, “o arquivo Cablegate foi espalhado, junto com material significativo dos EUA e de outros países, por mais de 100 mil pessoas, num formato encriptado. Se alguma coisa nos acontecer, as partes mais importantes do arquivo serão divulgadas automaticamente”.

Assange, que de um momento para o outro se tornou um dos homens mais procurados do mundo, deu esta sexta-feira uma conferência de imprensa aos cibernautas através do site do diário britânico Guardian. “Além disso”, completou, “os arquivos do Cablegate estão nas mãos de várias organizações de média. A História vai vencer. O mundo será elevado a um lugar melhor. Sobreviveremos? Isso depende de vós”.

Ciberguerra

Os responsáveis do Wikileaks travam uma verdadeira ciberguerra para se manterem online. Na quinta-feira, a Amazon.com, que hospedava o site num dos seus servidores comerciais, expulsou-o com o argumento mirabolante de que a organização “não detém os direitos de autor sobre todo o material”.

Nesta sexta-feira, o site foi tirado do ar, supostamente após um ataque cibernético de origem desconhecida. No mesmo dia, a empresa EveryDNS.net, que fizera o registo do site wikileaks.org, cancelou esse registo com o argumento ainda mais mirabolante de que a estrutura dos outros sites que lá se registaram estava a ser posta em risco pelos ataques sofridos pelo Wikileaks – uma alegação totalmente disparatada do ponto de vista técnico.

Assim, o Wikileaks neste momento está registado e hospedado na Suíça, com o endereço wikileaks.ch, mas tem inúmeras cópias noutros países (a lista dessas cópias está aqui).

Caça ao homem

Entretanto, o cerco em torno de Assange está aparentemente a apertar-se, depois de a Interpol ter emitido um mandato de captura internacional por uma acusação de violação que pesa sobre ele na Suécia. Segundo o advogado do fundador do Wikileaks, ele nunca foi formalmente acusado nem recebeu uma única nota escrita sobre essas acusações.

Segundo os média britânicos, Assange estaria na Grã-Bretanha desde Outubro, e teria dado os seus contactos e a sua morada à polícia quando chegou.

Um porta-voz da Polícia Nacional Sueca afirmou à BBC que o primeiro mandato de prisão internacional contra ele foi rejeitado pelas autoridades britânicas, por não especificar as penas máximas às quais estaria sujeito pelas acusações.

Com o cerco a fechar-se, a família disse-se preocupada com a segurança de Assange.

A sua mãe, Christine Assange, disse que “as forças que ele está a enfrentar são grandes demais”, depois de a direita americana ter sugerido o seu assassinato.

“As ameaças contra as nossas vidas são do domínio público, mas estamos a tomar as precauções adequadas dentro do que nos é possível, tendo em conta que estamos a lidar com uma superpotência”, afirmou Assange na entrevista no site do Guardian.

O pára-raios do Wikileaks

Perguntado se não teria sido melhor que o Wikileaks não tivesse uma face pública, Assange respondeu que inicialmente, os fundadores pensaram que o site não devia ter rosto e que ele deveria permanecer anónimo. “Mas isto provocou uma curiosidade enorme sobre quem éramos e muita distracção, com indivíduos que aleatoriamente reclamavam representar-nos. Percebi que alguém tem de ser responsável perante o público, e que só uma liderança que está disposta a ser corajosa pode sugerir genuinamente que as fontes se arrisquem”, explica. “Neste processo, tornei-me no pára-raios. Recebo ataques indevidos sobre cada aspecto da minha vida, mas também recebo crédito indevido, para contrabalançar.”

As respostas de Assange podem ser lidas aqui (em inglês).

quarta-feira, março 03, 2010

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Brasília tornou-se a vanguarda do atraso

Brasília - A capital tornou-se a vanguarda do atraso
Carta Capital Nr. 579, de 20/01/2010 14:05:45
Cynara Menezes
"O moderno aqui ficou só nos edifícios", constata tristemente o geógrafo gaúcho Aldo Paviani, pousando o olhar sobre Brasília, aonde chegou em 1969. Prestes a completar 50 anos, a capital criada por Juscelino Kubitschek, Lucio Costa e Oscar Niemeyer transformou-se numa melancólica contradição de si própria. O arrojo de sua arquitetura contrasta com uma prática política digna dos grotões mais atrasados do País: roubalheira, enriquecimento ilícito, domínio da mídia e do Legislativo, violência policial subjugando a população, voto de cabresto.
Como é que a moderna Brasília, nascida para tirar o Brasil do arcaísmo, projetada para incluir o País no Primeiro Mundo, se tornou terra de coronéis? No discurso de inauguração da capital, em abril de 1960, JK vislumbrava um destino civilizador para a recém-nascida “capital da esperança”, como a definiu o escritor francês André Malraux. Brasília, disse Juscelino, seria um “índice do alto grau de nossa civilização”. Nem podia imaginar que, cinquentona, sua criação seria, ao contrário, lançada à barbárie e às bestas-feras da política mais rastaquera.
As imagens de vídeo em que o governador José Roberto Arruda e auxiliares diretos recebem dinheiro e os acontecimentos subsequentes evidenciam que ingredientes típicos do velho coronelismo são utilizados pelos detentores do poder na capital. Na semana que passou, requintes de desfaçatez. Arruda conseguiu colocar aliados no domínio das comissões que vão investigá-lo. Como se não bastasse, o deputado distrital que apareceu para todo o Brasil colocando notas de dinheiro na meia, Leonardo Prudente, voltou a presidir a Câmara Legislativa para ajudar a salvar a pele do chefe.
No fim de 2009, policiais a cavalo apareceram nas telas de tevê pisoteando -manifestantes. “É a polícia mais bem paga do Brasil e uma verdadeira guarda pretoriana do governador”, diz o cientista político Paulo Kramer, da Universidade de Brasília (UnB). Nos últimos dias, os soldados voltaram a reprimir as manifestações contra o governador, agarrando estudantes pelo pescoço em cenas dignas do auge do domínio de Antonio Carlos Magalhães sobre a Bahia. Não à toa, o finado coronel ACM e Arruda foram comparsas no episódio da violação do painel eletrônico do Senado, em 2001, que motivaria a renúncia e as lágrimas de crocodilo do atual governador do Distrito Federal.
Diante das denúncias reveladas pela imprensa nacional, causaram espécie as manchetes anódinas do Correio Braziliense, principal jornal da capital, que evitou até o último momento citar o nome do governador na primeira página. Na terça-feira 12, após a dominação por Arruda das comissões de investigação, o Correio titulava simplesmente: “Distritais instalam CPI”. A ligação umbilical do diário com o governador foi explicitada por CartaCapital em julho, na reportagem que revelou o contrato no valor de 2,9 milhões de reais entre o GDF e o Correio para a distribuição de exemplares do jornal nas escolas públicas. (Foto: Crédito)

A capital tornou-se a vanguarda do atraso

“O que se pratica hoje em Brasília é um coronelismo de asfalto”, define Paulo Kramer, para quem a razão do atraso político da capital está em seu próprio status de cidade-Estado. “Como ela vive basicamente da administração pública, reproduz uma estrutura onde o Estado é forte e a sociedade é fraca”, argumenta. “É de certa forma similar ao que aconteceu nos países do Leste Europeu na época da União Soviética.”
Arruda é aprendiz de coronel, mas o grande mandachuva do Cerrado é outro. Deve-se a seu antecessor no cargo, Joaquim Roriz, a instalação e proliferação em Brasília da forma retrógrada de fazer política que tomou conta do DF. Eleito em 2006 com a promessa de fazer o oposto de Roriz, Arruda não só recaiu nas mesmas práticas como as aprimorou. “Pelo que se viu nas investigações, ele aperfeiçoou o modus operandi de Roriz”, afirma o cientista político David Fleischer, também da UnB.
Segundo Fleischer, a deterioração da política do DF pode ser explicada principalmente pelo baixo nível do eleitorado, com dois terços oriundos de outros Estados, baixa renda e baixa escolaridade. Presenteados com lotes por Roriz em quatro mandatos como governador, tornaram-se presa fácil de suas promessas, numa espécie de voto de cabresto onde a terra pública é o objeto de barganha. “No Nordeste, dão chinelos, dentaduras. Aqui deram terras”, compara o geógrafo Aldo Paviani.
De fato, desde que se tornou governador biônico, em 1988, e eleito outras três vezes, em 1990, 1998 e 2002, o goiano Joa-quim Roriz pautou suas administrações pela farta distribuição de lotes. Ele mesmo se orgulha de ser o responsável pela “construção” de sete novas cidades-satélites – na realidade, não houve planejamento urbano algum, apenas ocupação do espaço.
O mineiro José Aparecido, que o antecedeu como governador nomeado, havia feito o oposto, ao realizar a desastrada campanha Retorno com Dignidade, em 1987, que consistia basicamente em dar um banho no migrante ainda na rodoviária, cortar os cabelos e embarcá-lo de volta ao estado de origem. Roriz não só deu terra pública como atraiu mais migração ao defender uma política de “cada cidadão, um lote”, causando o inchaço da capital, atualmente com cerca de 2 milhões de habitantes. (Foto: Crédito)