segunda-feira, fevereiro 23, 2015

A sub-representação no Parlamento Brasileiro

Viagem aos Limites do Universo legendado

"Estamos à beira da total auto-destruição?", Noam Chomsky

"Estamos à beira da total auto-destruição?"
Análise

Existem mais processos de longo prazo apontando na direção, talvez não da destruição total, mas ao menos da destruição da capacidade de uma vida decente

27/01/2015

Por Noam Chomsky,

O que o futuro trará? Uma postura razoável seria tentar olhar para a espécie humana de fora. Então imagine que você é um extraterrestre observador que está tentando desvendar o que acontece aqui ou, imagine que és um historiador daqui a 100 anos - assumindo que existam historiadores em 100 anos, o que não é óbvio - e você está olhando para o que acontece. Você veria algo impressionante.

Pela primeira vez na história da espécie humana, desenvolvemos claramente a capacidade de nos destruirmos. Isso é verdade desde 1945. Agora está finalmente sendo reconhecido que existem mais processos de longo-prazo como a destruição ambiental liderando na mesma direção, talvez não à destruição total, mas ao menos à destruição da capacidade de uma existência decente.

E existem outros perigos como pandemias, as quais estão relacionadas à globalização e interação. Então, existem processos em curso e instituições em vigor, como sistemas de armas nucleares, os quais podem levar à explosão ou talvez, extermínio, da existência organizada.

Como destruir o planeta sem tentar muito

A pergunta é: O que as pessoas estão fazendo a respeito? Nada disso é segredo. Está tudo perfeitamente aberto. De fato, você tem que fazer um esforço para não enxergar.

Houveram uma gama de reações. Têm aqueles que estão tentando ao máximo fazer algo em relação à essas ameaças, e outros que estão agindo para aumentá-las. Se olhar para quem são, esse historiador futurista ou extraterrestre observador veriam algo estranho. As sociedades menos desenvolvidas, incluindo povos indígenas, ou seus remanescentes, sociedades tribais e as primeiras nações do Canadá, que estão tentando mitigar ou superar essas ameaças. Não estão falando sobre guerra nuclear, mas sim desastre ambiental, e estão realmente tentando fazer algo a respeito.

De fato, ao redor do mundo - Austrália, Índia, América do Sul - existem batalhas acontecendo, às vezes guerras. Na Índia, é uma guerra enorme sobre a destruição ambiental direta, com sociedades tribais tentando resistir às operações de extração de recursos que são extremamente prejudiciais localmente, mas também em suas consequências gerais. Em sociedades onde as populações indígenas têm influência, muitos tomam uma posição forte. O mais forte dos países em relação ao aquecimento global é a Bolívia, cuja maioria é indígena e requisitos constitucionais protegem os “direitos da natureza”.

O Equador, o qual também tem uma população indígena ampla, é o único exportador de petróleo que conheço onde o governo está procurando auxílio para ajudar a manter o petróleo no solo, ao invés de produzi-lo e exportá-lo - e no solo é onde deveria estar.

O presidente Venezuelano Hugo Chávez, que morreu recentemente e foi objeto de gozação, insulto e ódio ao redor do mundo ocidental, atendeu a uma sessão da Assembléia Geral da ONU a poucos anos atrás onde ele suscitou todo tipo de ridículo ao chamar George W. Bush de demônio. Ele também concedeu um discurso que foi interessante. Claro, Venezuela é uma grande produtora de petróleo. O petróleo é praticamente todo seu PIB. Naquele discurso, ele alertou dos perigos do sobreuso dos combustíveis fóssil e sugeriu aos países produtores e consumidores que se juntassem para tentar manejar formas de diminuir o uso desses combustíveis. Isso foi bem impressionante da parte de um produtor de petróleo. Você sabe, ele era parte índio, com passado indígena. Esse aspecto de suas ações na ONU nunca foi reportado, diferentemente das coisas engraçadas que fez.

Então, em um extremo têm-se os indígenas, sociedades tribais tentando amenizar a corrida ao desastre. No outro extremo, as sociedades mais ricas, poderosas na história da humanidade, como os EUA e o Canadá, que estão correndo em velocidade máxima para destruir o meio ambiente o mais rápido possível. Diferentemente do Equador e das sociedades indígenas ao redor do mundo, eles querem extrair cada gota de hidrocarbonetos do solo com toda velocidade possível.

Ambos partidos políticos, o presidente Obama, a mídia, e a imprensa internacional parecem estar olhando adiante com grande entusiasmo para o que eles chamam de “um século de independência energética” para os EUA. Independência energética é quase um conceito sem significado, mas botamos isso de lado. O que eles querem dizer é: teremos um século no qual maximizaremos o uso de combustíveis fóssil e contribuiremos para a destruição do planeta.

E esse é basicamente o caso em todo lugar. Admitidamente, quando se trata de desenvolvimento de energia alternativa, a Europa está fazendo alguma coisa. Enquanto isso, os EUA, o mais rico e poderoso país de toda a história do mundo, é a única nação dentre talvez 100 relevantes que não possui uma política nacional para a restrição do uso de combustíveis fóssil, e que nem ao menos mira na energia renovável. Não é por que a população não quer. Os americanos estão bem próximos da norma internacional com sua preocupação com o aquecimento global. Suas estruturas institucionais que bloqueiam a mudança. Os interesses comerciais não aceitam e são poderosos em determinar políticas, então temos um grande vão entre opinião e política em muitas questões, incluindo esta. Então, é isso que o historiador do futuro veria. Ele também pode ler os jornais científicos de hoje. Cada um que você abre tem uma predição mais horrível que a outra.

“O momento mais perigoso na história”

A outra questão é a guerra nuclear. É sabido por um bom tempo, que se tivesse que haver uma primeira tacada por uma super potência, mesmo sem retaliação, provavelmente destruiria a civilização somente por causa das consequências de um inverno-nuclear que se seguiria. Você pode ler sobre isso no Boletim de Cientistas Atômicos. É bem compreendido. Então o perigo sempre foi muito pior do que achávamos que fosse.

Acabamos de passar pelo 50o aniversário da Crise dos Mísseis Cubanos, a qual foi chamada de “o momento mais perigoso na história” pelo historiador Arthur Schlesinger, o conselheiro do presidente John F. Kennedy. E foi. Foi uma chamada bem próxima do fim, e não foi a única vez tampouco. De algumas formas, no entanto, o pior aspecto desses eventos é que a lições não foram aprendidas.

O que aconteceu na crise dos mísseis em outubro de 1962 foi petrificado para parecer que atos de coragem e reflexão eram abundantes. A verdade é que todo o episódio foi quase insano. Houve um ponto, enquanto a crise chegava em seu pico, que o Premier Soviético Nikita Khrushchev escreveu para Kennedy oferecendo resolver a questão com um anuncio publico de retirada dos mísseis russos de Cuba e dos mísseis americanos da Turquia. Na realidade, Kennedy nem sabia que os EUA possuíam mísseis na Turquia na época. Estavam sendo retirados de todo modo, porque estavam sendo substituídos por submarinos nucleares mais letais, e que eram invulneráveis.

Então essa era a proposta. Kennedy e seus conselheiros consideraram-na - e a rejeitaram. Na época, o próprio Kennedy estimava a possibilidade de uma guerra nuclear em um terço da metade. Então Kennedy estava disposto a aceitar um risco muito alto de destruição em massa afim de estabelecer o princípio de que nós - e somente nós - temos o direito de deter mísseis ofensivos além de nossas fronteiras, na realidade em qualquer lugar que quisermos, sem importar o risco aos outros - e a nós mesmos, se tudo sair do controle. Temos esse direito, mas ninguém mais o detém.

No entanto, Kennedy aceitou um acordo secreto para a retirada dos mísseis que os EUA já estavam retirando, somente se nunca fosse à publico. Khrushchev, em outras palavras, teve que retirar abertamente os mísseis russos enquanto os EUA secretamente retiraram seus obsoletos; isto é, Khrushchev teve que ser humilhado e Kennedy manteve sua pose de macho. Ele é altamente elogiado por isso: coragem e popularidade sob ameaça, e por aí vai. O horror de suas decisões não é nem mencionado - tente achar nos arquivos.

E para somar um pouco mais, poucos meses antes da crise estourar os EUA haviam mandado mísseis com ogivas nucleares para Okinawa. Eram mirados na China durante um período de grande tensão regional.

Bom, quem liga? Temos o direito de fazer o que quisermos em qualquer lugar do mundo. Essa foi uma lição daquela época, mas haviam outras por vir.

Dez anos depois disso, em 1973, o secretário de estado Henry Kissinger chamou um alerta vermelho nuclear. Era seu modo de avisar à Rússia para não interferir na constante guerra Israel-Árabes e, em particular, não interferir depois de terem informado aos israelenses que poderiam violar o cessar fogo que os EUA  e a Rússia haviam concordado. Felizmente, nada aconteceu.

Dez anos depois, o presidente em vigor era Ronald Reagan. Assim que entrou na Casa Branca, ele e seus conselheiros fizeram com que a Força Aérea começasse a entrar no espaço aéreo Russo para tentar levantar informações sobre os sistemas de alerta russos, Operação Able Archer. Essencialmente, eram ataques falsos. Os Russos estavam incertos, alguns oficiais de alta patente acreditavam que seria o primeiro passo para um ataque real. Felizmente, eles não reagiram, mesmo sendo uma chamada estreita. E continua assim.

O que pensar das crises nucleares Iraniana e Norte-Coreana

No momento, a questão nuclear está regularmente nas capas nos casos do Irã e da Coréia do Norte. Existem jeitos de lidar com esse crise contínua. Talvez não funcionasse, mas ao menos tentaria. No entanto, não estão nem sendo consideradas, nem reportadas.

Tome o caso do Irã, que é considerado no ocidente - não no mundo árabe, não na Ásia - a maior ameaça à paz mundial. É uma obsessão ocidental, e é interessante investigar as razões disso, mas deixarei isso de lado. Há um jeito de lidar com a suposta maior ameaça à paz mundial? Na realidade existem várias. Uma forma, bastante sensível, foi proposta alguns meses atrás em uma reunião dos países não alinhados em Teerã. De fato, estavam apenas reiterando uma proposta que esteve circulando por décadas, pressionada particularmente pelo Egito, e que foi aprovada pela Assembléia Geral da ONU.

A proposta é mover em direção ao estabelecimento de uma zona sem armas nucleares na região. Essa não seria a resposta para tudo, mas seria um grande passo à frente. E haviam modos de proceder. Sob o patrocínio da ONU, houve uma conferência internacional na Finlândia dezembro passado para tentar implementar planos nesta trajetória. O que aconteceu? Você não lerá sobre isso nos jornais pois não foi divulgado - somente em jornais especialistas.

No início de novembro, o Irã concordou em comparecer à reunião. Alguns dias depois Obama cancelou a reunião, dizendo que a hora não estava correta. O Parlamento Europeu divulgou uma declaração pedindo que continuasse, assim como os estados árabes. Nada resultou. Então moveremos em direção a sanções mais rígidas contra a população Iraniana - não prejudica o regime - e talvez guerra. Quem sabe o que irá acontecer?

No nordeste da Ásia, é a mesma coisa. A Coréia do Norte pode ser o país mais louco do mundo. É certamente um bom competidor para o título. Mas faz sentido tentar adivinhar o que se passa pela cabeça alheia quando estão agindo feito loucos. Por que se comportariam assim? Nos imagine na situação deles. Imagine o que significou na Guerra da Coréia anos dos 1950’s o seu país ser totalmente nivelado, tudo destruído por uma enorme super potência, a qual estava regozijando sobre o que estava fazendo. Imagine a marca que deixaria para trás.

Tenha em mente que a liderança Norte Coreana possivelmente leu os jornais públicos militares desta super potência na época explicando que, uma vez que todo o resto da Coréia do Norte foi destruído, a força aérea foi enviada para a Coréia do Norte para destruir suas represas, enormes represas que controlavam o fornecimento de água - um crime de guerra, pelo qual pessoas foram enforcadas em Nuremberg. E esses jornais oficiais falavam excitadamente sobre como foi maravilhoso ver a água se esvaindo, e os asiáticos correndo e tentando sobreviver. Os jornais exaltavam com algo que para os asiáticos fora horrores para além da imaginação. Significou a destruição de sua colheita de arroz, o que resultou em fome e morte. Quão maravilhoso! Não está na nossa memória, mas está na deles.

Voltemos ao presente. Há uma história recente interessante. Em 1993, Israel e Coréia do Norte se moviam em direção a um acordo no qual a Coréia do Norte pararia de enviar quaisquer mísseis ou tecnologia militar para o Oriente Médio e Israel reconheceria seu país. O presidente Clinton interveio e bloqueou. Pouco depois disso, em retaliação, a Coréia do Norte promoveu um teste de mísseis pequeno. Os EUA e a Coréia do Norte chegaram então a um acordo em 1994 que interrompeu seu trabalho nuclear e foi mais ou menos honrado pelos dois lados. Quando George W. Bush tomou posse, a Coréia do Norte tinha talvez uma arma nuclear e verificadamente não produzia mais.

Bush imediatamente lançou seu militarismo agressivo, ameaçando a Coréia do Norte - “machado do mal” e tudo isso - então a Coréia do Norte voltou a trabalhar com seu programa nuclear. Na época que Bush deixou a Casa Branca, tinham de 8 a 10 armas nucleares e um sistema de mísseis, outra grande conquista neoconservadora. No meio, outras coisas aconteceram. Em 2005, os EUA e a Coréia do Norte realmente chegaram a um acordo no qual a Coréia do Norte teria que terminar com todo seu desenvolvimento nuclear e de mísseis. Em troca, o ocidente, mas principalmente os EUA, forneceria um reator de água natural para suas necessidades medicinais e pararia com declarações agressivas. Eles então formariam um pacto de não agressão e caminhariam em direção ao conforto.

Era muito promissor, mas quase imediatamente Bush menosprezou. Retirou a oferta do reator de água natural e iniciou programas para compelir bancos a pararem de manejar qualquer transação Norte Coreana, até mesmo as legais. Os Norte Coreanos reagiram revivendo seu programa de armas nuclear. E esse é o modo que se segue.

É bem sabido. Pode-se ler na cultura americana principal. O que dizem é: é um regime bem louco, mas também segue uma política do olho por olho, dente por dente. Você faz um gesto hostil e responderemos com um gesto louco nosso. Você faz um gesto confortável e responderemos da mesma forma.

Ultimamente, por exemplo, existem exercícios militares Sul Coreanos-Americanos na península Coreana a qual, do ponto de vista do Norte, tem que parecer ameaçador. Pensaríamos que estão nos ameaçando se estivessem indo ao Canadá e mirando em nós. No curso disso, os mais avançados bombardeiros na história, Stealth B-2 e B-52, estão travando ataques de bombardeio nuclear simulados nas fronteiras da Coréia do Norte.

Isso, com certeza, reacende a chama do passado. Eles lembram daquele passado, então estão reagindo de uma forma agressiva e extrema. Bom, o que chega no ocidente derivado disso tudo é o quão loucos e horríveis os líderes Norte Coreanos são. Sim, eles são. Mas essa não é toda a história, e esse é o jeito que o mundo está indo.

Não é que não haja alternativas. As alternativas somente não estão sendo levadas em conta. Isso é perigoso. Então, se me perguntar como o mundo estará no futuro, saiba que não é uma boa imagem. A menos que as pessoas façam algo a respeito. Sempre podemos.

Texto originalmente publicado no Alternet.

Tradução: Isabela Palhares

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

De quem é a culpa da falta d´água em São Paulo

Assembleia discute falta d´água em São Paulo

Audiência pública na Assembleia Legislativa de SP debate crise hídrica
Participantes debateram e apresentaram propostas de curto e longo prazos.
Para especialistas, a situação 'é bastante grave'.
FACEBOOK - 06/02/2015 00h16 - Atualizado em 06/02/2015 00h16


 Dezenas de pessoas participam de audiência pública sobre a crise hídrica no Auditório Franco Montoro, na Alesp (Foto: Marcelo Mora/G1)

A crise hídrica em São Paulo que afeta a região metropolitana e parte do interior de São Paulo foi objeto de uma audiência pública na Assembleia Legislativa, na região do Ibirapuera, na Zona Sul de São Paulo, no final da tarde e noite desta quinta-feira (5).

Especialistas, políticos, funcionários da Sabesp e representantes de movimentos sociais e de preservação do meio ambiental debateram, no Auditório Franco Montoro, o tema ao longo de mais de quatro horas, apontando os motivos que levaram à escassez de água nestas regiões e apresentando propostas para tentar minimizar os efeitos da crise.
Não participaram do evento representantes do governo estadual e nem da Sabesp. Também não compareceram integrantes de órgãos específicos do setor, como Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) e Agência Nacional de Águas (ANA), e nem políticos da situação e da base de apoio a Geraldo Alckmin no legislativo estadual.

“A Assembleia tem de fazer esse debate, tem de apresentar soluções, tem de ouvir a população, essa é a primeira questão. Outra questão é que estamos ouvindo, coletando propostas para sair desta crise. Movimentos sociais, técnicos, funcionários da Sabesp, representantes das universidades públicas estão trazendo muitas propostas interessantes aqui”, afirmou o deputado estadual Carlos Giannazi, do Psol, que coordenou os trabalhos na mesa de debates.
Especialistas do setor esboçaram um quadro bastante crítico para o abastecimento deste recurso para os próximos anos.

“A situação é grave”, resumiu Antonio Carlos Zuffo, professor da área de hidrologia e gestão de recursos hídricos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Uma das propostas apresentadas por ele em sua apresentação foi a de usar a água ‘bruta’ da Represa Billings para atender as cerca de seis milhões de pessoas abastecidas pelo Sistema Cantareira.

“Se acabarem as três cotas do volume morto do Cantareira nos próximos meses, não haveria outra alternativa. Poderia ser feita a desinfecção da água da Billings para que a população pudesse utilizá-la em descargas, para limpeza e tomar banho. A água teria cheiro mas dá para usar. Outra parte da Billings iria para o Sistema Alto Cantareira, onde seria tratada. Essa água tratada, potável, teria de ser distribuída pela Sabesp em lugares públicos, como praças, por exemplo”, explicou.

Segundo Zuffo, em relação à Billings, o principal ‘gargalo’ no momento seria, na verdade, a capacidade de tratamento da água da represa.

O engenheiro civil e sanitarista José Roberto Kachel do Santos, que trabalhou por 34 anos na Sabesp, afirmou, por sua vez, que “a situação é muito crítica”. Ele apresentou gráficos para ilustrar de que forma o Sistema Cantareira foi quase exaurido. Na média anual, foram retirados 24,18 metros cúbicos do sistema em 2014. Em contrapartida, as represas receberam apenas 8,75 de metros cúbicos, um terço do que foi retirado, no ano passado.
“A Sabesp retirou muito mais do que deveria, adotando cenários otimistas, irreais. A questão todinha é essa: a Sabesp não se preparou para o pior e ficou esperando pelo melhor”, sintetizou.
Segundo ele, é muito difícil fazer uma previsão de quando o sistema será normalizado. “Para fazer as contas de entrada e saída foi fácil, porque são volumes já constatados. Agora é um cálculo muito difícil prever quando o sistema irá se recuperar e normalizar, porque depende de muitos fatores, como climáticos e ambientais”, disse.
Dentre as propostas apresentadas por representantes de movimento sociais, estão o tabelamento do preço da água potável e a distribuição de recipientes adequados para o armazenamento deste recurso, com o objetivo de evitar a proliferação de difusores de epidemias, como o mosquito da dengue.
“Não necessariamente a gente precisa de mais água, mas precisamos usar melhor a água”, afirmou Marussia Whately, uma das coordenadoras do Aliança pela Água, que congrega cerca de 50 entidades da sociedade civil com objetivo de contribuir para construção da segurança hídrica em São Paulo.

Um dos três princípios básico defendidos pela coalização é o de que água “não é mercadoria”, segundo Marussia. “O excesso de água, como já vimos no caso de enchentes, provoca solidariedade. A escassez de água, por sua vez, gera disputas”, enfatizou.
Todas as propostas apresentadas na audiência pública serão reunidas em um documento e apresentadas em plenário na Assembleia com o objetivo de elaborar projetos de lei que possam vir a facilitar a implementação das mesmas no futuro, segundo Giannazi.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

A classe média, de que é possível

O silêncio do 'homem de bem'
Contardo Calligaris -
29/01/2015

DE SÃO PAULO

Anteontem, 27 de janeiro, foi o aniversário de 70 anos da libertação do campo de concentração de Auschwitz pelas tropas soviéticas. A data ficou como símbolo do fim do pesadelo, embora Auschwitz não fosse o primeiro campo encontrado pelos Aliados avançando rumo à Alemanha.

A Congregação Israelita Paulista comemorou o dia antecipadamente, no domingo. Os protagonistas da cerimônia eram os sobreviventes do genocídio que vivem entre nós –quase todos meninas e meninos quando entraram nos campos, logo antes do desfecho.

Grupo de prisioneiros se dirige ao crematório de Auschwitz, 
onde eles seriam assassinados

Foi especialmente bom estar lá, porque estamos atravessando dias obscuros. Como sempre em tempos de intolerância, o que fala mais alto é o ódio por quem é apenas um pouco diferente. Os sunitas (do Boko Haram) massacram os xiitas na Nigéria. A mesma fúria assassina aparece no Paquistão, na Síria ou no Iraque (com o dito Estado Islâmico). No conflito aberto do Oriente Médio, como na Europa, o futuro é incerto.

Claro, o horror pode ser a obra de fanáticos ou de "monstros", mas ele nunca é eficaz se não for acompanhado pelo silêncio e pela distração do homem comum –ou seja, o horror sempre pede alguma cumplicidade das ditas "pessoas de bem".

Domingo, ao longo da cerimônia, eu pensava em Tocqueville (1805-1859) e em Isaiah Berlin (1909-1997), que são, para mim, os dois grandes defensores dos valores democráticos e liberais –melhor: defensores do indivíduo, inclusive (e sobretudo) contra o Estado que ele mesmo inventa para conviver com seus semelhantes (e com seus diferentes).

Ambos, Tocqueville e Berlin, nunca esquecem que uma democracia pode facilmente vir a ser inimiga da liberdade de seus cidadãos. Exemplo recente e apropriado: Hitler chegou ao poder, se não propriamente por via eleitoral, por uma espécie de aclamação que poderia ser considerada "democrática".

Em geral, a lembrança desse fato (e de outros análogos) produz considerações sobre a burrice do povo, que não saberia escolher seus candidatos e se deixaria seduzir por populistas de cada tipo. Surgem assim propostas recorrentes para abolir o sufrágio universal e criar um censo eleitoral. Será que é certo mesmo que todos votem? O voto já foi privilégio de quem possuía bens e terras e de quem sabia ler. Por que não instituir um exame de conhecimentos gerais para poder votar?

A essas propostas recorrentes, respondo que, na verdade, pouco importa se o eleitor sabe ler, se ele "entende" de política ou se conhece as instituições da república.



Pouco importa, porque o que acaba com a democracia não é que o eleitor não sabe ou não entende; o que acaba com a democracia é que o eleitor se vende muito barato –e, geralmente, por medo de perder o nada que ele tem.

O último (imperdível) filme dos irmãos Dardenne, "Dois Dias, Uma Noite" (com Marion Cotillard, extraordinária), é a história de uma mulher cujos colegas aceitam que ela perca seu emprego porque, em troca, cada um deles receberá mil euros de bônus. A classe operária da minha juventude, se é que ela existiu, não existe mais. No seu lugar, no filme, há uma pequena (e terrificante) classe média, que está disposta a quase tudo para preservar seu status ou para melhorá-lo marginalmente (quando você assistir ao filme, lembre-se de que mil euros são três mil reais).


Você topa trocar um pouco de sua liberdade por mais segurança? Por exemplo, aceitaria poder ser parado e revistado a qualquer momento sem motivo legal, para que seja mais fácil identificar eventuais criminosos? Você é dos que hesitam antes de responder?

Pois bem: você topa trocar a liberdade dos outros (não a sua, desta vez) pela mesma segurança suplementar? Por exemplo, toparia que todos os ciganos fossem expulsos da França se, com isso, você fosse roubado com menos frequência, no metrô?

Você acha esse exemplo distante de nossa realidade? Passe uma manhã cedo na Polícia Federal de São Paulo, na Lapa, e veja a longa fila dos que pedem asilo. É só esperar, o Brasil terá seu momento-França.



O proletariado devia ser o pilar da justiça social, e a classe média, o pilar da liberdade do indivíduo. O proletariado acabou idolatrando a máquina burocrática do Estado. A classe média só se preocupa em não deslizar para baixo, e é sempre facílimo apavorá-la: para que renuncie à liberdade (a sua e a dos outros), basta murmurar em seu ouvido, por exemplo, que os estrangeiros tomarão seu lugar, seu emprego, e, claro, suas mulheres.

Contardo Calligaris, italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Ensinou Estudos Culturais na New School de NY e foi professor de antropologia médica na Universidade da Califórnia em Berkeley. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias).

Fonte: Folha de S. Paulo

terça-feira, janeiro 27, 2015

Mercado de Notícias: documentário sobre jornalismo e democracia.

SINOPSE
O Mercado de Notícias é um documentário sobre jornalismo e democracia.
O filme traz os depoimentos de treze importantes jornalistas brasileiros sobre o sentido e a prática de sua profissão, as mudanças na maneira de consumir notícias, o futuro do jornalismo, e também sobre casos recentes da política brasileira, onde a cobertura da imprensa teve papel de grande destaque.

O surgimento do jornalismo, no século 17, é apresentado pelo humor da peça “O Mercado de Notícias”, escrita pelo dramaturgo inglês Ben Jonson em 1625. Trechos da comédia de Jonson, montada e encenada para a produção do filme, revelam sua espantosa visão crítica, capaz de perceber na imprensa de notícias, recém-nascida, uma invenção de grande poder e grandes riscos.

VÍDEO

O cineasta Jorge Furtado conversou com a jornalista Daniela Pinheiro, em bate-papo mediado por José Carlos Avellar, acerca de O mercado de notícias, seu mais recente filme que mescla ficção e documentário e aborda o cenário contemporâneo do jornalismo brasileiro. A mídia pode ter sido tema de vários grandes filmes americanos e europeus, mas no Brasil, o assunto ainda é tabu, afirma Furtado, que entrevistou diversos repórteres e jornalistas com opiniões divergentes para suscitar uma infinidade de questões sobre a função do jornalismo. Assista abaixo ao bate-papo na íntegra:


A diferença entre documentário e ficção é ética: conversa com Jorge Furtado

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Perseguição dos Alves, A Maldição

Inocentado, blogueiro atribui à família Arruda derrota de Henrique na eleição
O BG afirmou que postou comentários a respeito de fatos positivos ou negativos da campanha e atuação política e pública de Henrique
Postado dia 22/01/2015 às 15h13 por: Portal JH


O blogueiro Bruno Giovanni

O blogueiro Bruno Giovanni foi inocentado nesta semana da acusação de comandar o “exercito de fakes” de Robinson Faria (PSD), nas redes sociais, contra Henrique Eduardo Alves (PMDB), durante a campanha e 2014. E, agora livre do processo, restou para o BG, como é conhecido, o desabafo. Em sete textos intitulados “Os aloprados do PMDB”, publicados no blog dele, foram várias as queixas contra a campanha peemedebista e a família Arruda Câmara, a quem atribuiu a derrota de Henrique.

“Hoje, após quatro meses em silêncio, e um dia depois de ter sido inocentado pelo Tribunal Regional Eleitoral no processo movido contra mim pela campanha do deputado Henrique Eduardo Alves, derrotado nas eleições para governador, eu tenho uma história para contar pra vocês. Vou narrar a história dessa denúncia vazia e que tinha como propósito silenciar este blogueiro e atingir o então candidato e agora governador Robinson Faria. Ações sórdidas, pressões, constrangimentos, coações e ameaças, a pessoas do meu convívio, a gente que eu sequer conhecia, integrantes da minha família e anunciantes do blog. Tudo foi feito para silenciar e desmoralizar este que vos escreve”, afirmou o blogueiro.

Segundo o BG, a relação entre ele, Henrique, Arturo Arruda (cunhado de Henrique e dono da Art&C, agência responsável pelo marketing do peemedebista na campanha), e Laurita Arruda (jornalista, blogueira e mulher de Henrique), sempre foi boa. Contudo, teria surgido dela as primeiras acusações de que ele estaria comandando o exercito de fakes. “Olhei para Laurita e pedi para que ela parasse de dizer que eu comandava ‘fakes’. Ela se mostrou espantada, se defendeu e negou estar fazendo tal coisa, falou que eram as pessoas que estavam falando, olhei nos olhos dela e disse, pessoas ligadas a você. Foi o nosso último contato pessoal”, relembrou, no início da história contada.

O BG afirmou que postou comentários a respeito de fatos positivos ou negativos da campanha e atuação política e pública de Henrique. Os casos do envolvimento do seu nome no escândalo da Petrobras, a leitura da Playboy em plena sessão do congresso, o escândalo da capa da IstoÉ, a existência de um processo no TRF sobre dinheiro no Exterior, o processo de improbidade oriunda de sua participação na SEGOV, o Caso do Bode Galeguinho. Contudo, jamais perfis fakes.

Contudo, “falsos advogados da UERN” articularam uma denúncia com base em um testemunho feito pelo irmão de Fernanda Andrade, que trabalhava com ele nas redes sociais de Robinson Faria. “Foi o suficiente para se montar uma armação contra esse blogueiro. A ideia era calar, silenciar, constranger, ridicularizar e desmoralizar esse blogueiro. Mas, na pressa, armaram uma denúncia meia boca para ter peso na campanha e comprometer o meu blog. Me destruir literalmente”, afirmou o blogueiro.

O Bruno Giovanni relembrou a repercussão negativa contra ele na época, quando foi até chamado pelo jornalista e também blogueiro Ricardo Rosado (assessor de Henrique) de “Marketing Marginal”. “Achando pouco o linchamento público por aproximadamente 30 perfis, todos ligados à ‘primeira dama’, passaram a enviar e-mails para os anunciantes dos blogs com mensagens de pressão. Três empresas foram as mais atingidas. Uma delas recebeu no mesmo dia 18 emails, enviados com nomes diferentes, com o mesmo IP”, acrescentou o BG.

Bruno Giovanni criticou, principalmente, a família Arruda Câmara, que teria sido responsável, inclusive, pela derrota de Henrique. Afinal, segundo relembrou o BG, foi Cassiano Arruda o responsável por apelidar o peemedebista de “Deputado Copa do Mundo”, titulo que até hoje é utilizado contra o deputado. “Arturo preferiu, por causa de uma campanha eleitoral, ser o avalista de toda essa sujeira praticada contra mim, contra outras pessoas que o admiravam e contra o agora governador do Estado”, comentou o BG, acrescentando que a atuação dele no marketing acabou fazendo Henrique perder 15 minutos de tempo de televisão nos últimos dias da campanha. “Um recorde negativo que mostra a mão pesada e errada do marketing da campanha coordenado pelo mesmo”, comentou.

Sobre Laurita, BG afirmou que ela ajudou na derrota por “ter convencido o marido de que ele era imbatível” e “ter se transformado no maior cabo eleitoral de Robinson nas redes sociais, com suas tiradas pautadas pela arrogância, prepotência e vaidade. Virou meme”. “Dizem pessoas próximas a mim que eu tenha muito cuidado. Que eu serei perseguido pelo resto da vida, pelos Arruda e por Henrique Alves. Dizem que eu devo dormir de olhos abertos, porque na primeira oportunidade que tiverem acabam comigo. O histórico fala por si. Confesso que isso não me aflige. Sou dos cristãos que acreditam que quem faz aqui paga aqui e quem faz o bem recebe o bem”, afirmou o BG.

quinta-feira, janeiro 01, 2015

Precisamos cobrar fidelidade aos servidores a quem pagamos

A UFRN acovardada
"A universidade é um patrimônio da humanidade. Atacada ou não, em crise ou não, 
ela existe, e é agora, nesse momento concreto por que passam as sociedades, 
que precisa mostrar seu valor."
Professor Marco Aurélio Nogueira, titular de Teoria Política na Unesp
A propósito do livro “Os pactos na cena política cearense: passado e presente”, do professor e pesquisador César Barreira, da Universidade Federal do Ceará, que discute “as mudanças políticas e econômicas que serviram de base para a construção de um novo ciclo de poder no Ceará”, oferecendo elementos para compreender até que ponto foram rompidas as práticas políticas tradicionais, azeitadas pelos antigo coronéis, com a subida ao poder, na década de 80, dos “novos empresários”, incluso no texto (abaixo) sobre a visita que fizemos, em Fortaleza, aos jornais O Povo e Diário do Nordeste, queremos recordar que, no Rio Grande do Norte, a nossa Universidade se acovardou.
Qual o papel da Universidade? - indaga o professor Marco Aurélio Nogueira, titular de Teoria Política na Unesp, Campus de Araraquara, e um dos editores de "Gramsci e o Brasil". Marco Aurélio responde:
"A universidade existe para produzir conhecimento, gerar pensamento crítico, organizar e articular os saberes, formar cidadãos, profissionais e lideranças intelectuais. O desempenho dessas nobres e decisivas funções, porém, não é algo que se resolva no plano abstrato. Do mesmo modo que as demais instituições, a universidade está sempre historicamente determinada. Pode funcionar bem ou mal, cumprir com maior ou menor efetividade suas atribuições, ser mais ou menos admirada e respeitada. Ela não é perfeita nem inquestionável. Não está acima da sociedade nem desconectada dela. As próprias circunstâncias internas da instituição - seu corpo docente, sua estrutura administrativa, seus dirigentes, estatutos e tradições - incidem sobre sua imagem e seu desempenho. Em certa medida, cada época, cada sociedade e cada Estado têm a universidade que podem ter, por mais que a instituição universitária, por sua própria natureza, tenha luz própria e possa, justamente por isso, operar com alguma liberdade em relação às circunstâncias histórico-sociais que lhe estão na base. Não se trata de dependência ou limitação, mas de determinação." (Conforme artigo "Qual o papel da Universidade", em http://marxbrito.blogspot.com.br/2008/02/qual-o-papel-da-universidade.html, acesso em: 01 jan 2015). Ao final, ele assevera: "A universidade é um patrimônio da humanidade. Atacada ou não, em crise ou não, ela existe, e é agora, nesse momento concreto por que passam as sociedades, que precisa mostrar seu valor."
O que queremos enfocar é que são os contribuintes que sustentam a Universidade com os seus impostos e, no caso do Rio Grande do Norte, sustentam a pompa e ostentação, a arrogância e a presunção, enfim, a luxúria de nossos lentes, todos eles ganhando salários muito acima dos proventos dos trabalhadores, em geral, para permanecerem calados sobre as iniquidades praticadas pelos nossos oligarcas contra a massa do povo.
Podemos aquilatar a fortuna que nos é subtraída, pilhada, saqueada, diariamente pelas quadrilhas montadas no Estado, inclusive no âmbito da própria Universidade, a partir da leitura das matérias publicadas nos jornais. Pudemos falar acerca deste tema no livro "Meu filho, Meu tesouro, Minha República dos ovos de ouro no berço da Mafiocracia", ao abordarmos o tema Mafiocracia.
A população, que paga TUDO e por TUDO, é para ser melhor servida por esses servidores, a quem paga remunerações formidáveis.
Enquanto isto, somos submetidos aos horrores de consecutivas gestões públicas fraudulentas, entregues a "filhinhos de papai" a quem não conhecemos, despreparados para as funções, a quem entregamos a exploração de nossas riquezas, vendo ao lado e no coroamento dessas malignidades a Universidade calada, acuada, acovardada.


Os novos Senhores da humanidade
Basta ver o que nos diz a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, Angela C. de Siqueira, no artigo "As novas relações entre a Universidade e a sociedade brasileira na era da revolução científico--tecnológica: O saber (Poder) em disputa": (http://www.anped11.uerj.br/18/SIQUEIRA.htm), quando assinala:
"A UNIVERSIDADE E SUAS VINCULAÇÕES NOS ANOS 80
"Se no final idade média as universidades e o saber por elas produzido ou divulgado eram submetidos ao poder da igreja, passamos aqui na América Latina , na década de 90 e no mundo na década de oitenta a ver "um boom na expansão de diversos tipos de mecanismos de vinculação entre as universidades e o setor produtivo. Até meados aos anos setenta(2) e, com exceção do Instituto de Tecnología de Massachussetts (MIT) e da Universidade de Stanford,(...), atividades tais como criação de firmas a partir das universidades eram totalmente estranhas à vida acadêmica" (FANELLI, 94)
"A mudança acima apontada tem a ver com a nova ordem mundial, onde os Estados-Nações vêem paulatinamente perdendo suas funções ante o fenômeno da globalização e regionalização ( Mercado Comum Europeu, NAFTA, Tigres Asiáticos, MERCOSUL, etc) da economia, com o surgimento e fortalecimento dos novos 'senhores da humanidade': '(...) Em nossa época os senhores são, cada vez mais, as corporações supranacionais e as instituições financeiras que dominam a economia mundial, incluindo o comércio internacional (...). o país é uma preocupação secundária para os senhores, que estão jogando um jogo diferente. Suas regras foram reveladas pelo o que 'The New York Times' chamou do 'Paradoxo de 92'.
"A vinculação cada vez mais estreita, a nível mundial, universidade-empresa tem haver com a atendimento dos interesses do capital e, no caso da América Latina e do Brasil em particular, estão vinculados a crescente pressão exercida pelos 'novos senhores do mundo' na criação do 'Estado Mínimo' . O Estado Mínimo seria mínimo para os benefícios sociais e máximo para colocar recursos públicos - incluindo aí o saber, os recursos de pesquisa, etc da Universidade - auxiliando no desenvolvimento econômico das empresas e grupos privados. Recursos não só financeiros, mas principalmente, no que tange, à educacação e mais efetivamente à universidade, redirecionar sua atuação aos interesses 'nacionais', ao 'desenvolvimento do país', dentro de uma concepção econômico-tecnicista dos mesmos.
"A autora baseia-se em dois estudos: BLACKMAN, C. & SEGAL, Nick (1992). Industry and Higher Education. The Encyclopedia of Higher Education. Ed. Burton R. Clark & Guy Neave, 1ª ed., 4 vols, Oxford, Pergamon Press. p. 934-46 e FERNÁNDEZ DEL LUCIO, Ignácio et. al (1993). Interacción universidad-empresa en España. Cooperación empresa -universidad en Iberoamérica. Ed. Guilherme Ary Plonski. San Pablo: CYTED. p. 109-36.
"'Economia Fraca, Lucros Fortes'. 'O país' como entidade geográfica pode sofrer um declínio. Mas os interesses dos 'principais arquitetos' da política serão 'particularmente bem atendidos'. (CHOMSKY, 1993)."

Sugestão de leitura:

"Crônica / Matheus Pichonelli
O ódio à democracia
O antidemocratismo manifestado em ano eleitoral não é resultado de um sistema ainda imaturo, mas de um processo que se consolida e começa a incomodar
por Matheus Pichonelli — publicado 27/10/2014 11:40, última modificação 27/10/2014 17:25

"Nordestino não sabe votar". "Pobres merecem o que têm". "Abaixo o Bolsa Esmola". "Vão pra Cuba". "Muda para Miami". "Os empregados deveriam ser proibidos de participar". "Paulista é uma raça egoísta". "Deveríamos nos separar do resto do país". Não, não é por acaso que as manifestações de ojeriza à política, ao contraditório e ao voto das populações mais pobres tenham se intensificado ao longo desta eleição, a sétima desde a reabertura democrática. A democracia brasileira é jovem, mas não é uma criança. Parte do ódio que ela provoca é antes o resultado de sua maturidade do que de seu ineditismo: quem vocifera não são os que desconhecem seu funcionamento, mas os que o conhecem muito bem – a ponto de, em pleno 2014, falarem em golpe, impeachment ou cegueira coletiva para deslegitimar um resultado adverso.

A polarização, cada vez mais acentuada entre os dois principais partidos do País, levou candidatos, eleitores-internautas, internautas-eleitores e parte da mídia a se comportar como torcedores de arquibancada nas últimas semanas, em especial no último domingo, 26 de outubro, quando a presidenta Dilma Rousseff foi reeleita. A tônica variava, mas tinha uma mesma base: não bastava expressar o voto, era preciso eliminar o concorrente e quem vota no concorrente – principalmente se ele não tem o mesmo repertório, a mesma escolaridade, a mesma (e suposta) independência material. Daí as agressividades identificadas tanto no submundo da internet quanto nas vozes de autoridades, personalidades e celebridades – que se engajaram na campanha atual, com apoio de um lado a outro, como nunca antes na história.

A essa altura, atribuir a um ou a outro a primazia do primeiro tacape será inútil. É preciso entender por que a agressividade se avoluma à medida que o sistema democrático se constrói – pois sua construção é um exercício permanente. Não é um fenômeno local: na Europa, onde o sistema é vigente há mais tempo, os intelectuais se batem há tempos sobre as contradições do chamado “reino do excesso” e das demandas pulverizadas (“mesquinhas”, segundo muitos) de um conjunto de indivíduos, muitos representantes de minorias – e não, para desespero das velhas oligarquias, de uma multidão uniforme.

Em um país como o Brasil, onde privilégio ao nascer e hegemonia política e econômica foram sinônimos ao longo da história, a ascensão de determinados grupos antes subjugados têm produzido todo tipo de ofensa ao chamado “individualismo democrático”. Sobram patadas sobre pobres, gays, lésbicas, negros, "comunistas", mulheres. Um exemplo foram as manifestações de ódio contra a população nordestina, onde o PT conquistou muitos votos. A repulsa chega com todos os disfarces, mas pode ser identificada, por exemplo, quando um ex-presidente da República atribui um resultado adverso (para ele e os seus) à cegueira coletiva dos “menos instruídos”.

No livro Ódio à Democracia, recém-publicado no Brasil pela Boitempo Editorial, o filósofo franco-argelino Jacques Rancière deixa pistas para entender este fenômeno. Um fenômeno que, a se fiar pela experiência europeia e pelos últimos embates, será cada vez mais comum por esses lados. A obra é uma crítica contundente à denúncia do “individualismo democrático” – que, segundo ele, cobre, com pouco esforço, duas teses: a clássica dos favorecidos (os pobres querem sempre mais) e das elites refinadas (há indivíduos demais, gente demais reivindicando o privilégio da individualidade). “O discurso intelectual dominante une-se ao pensamento das elites censitárias e cultas do século XIX: a individualidade é uma coisa boa para as elites; torna-se um desastre para a civilização se a ela todos têm acesso”, escreve. Para o autor, não é o individualismo que esse discurso rejeita, mas a possibilidade de qualquer um partilhar de suas prerrogativas. “A crítica ao ‘individualismo democrático’ é simplesmente o ódio à igualdade pelo qual uma intelligentsia dominante confirma que é a elite qualificada para dirigir o cedo rebanho”.

Qualquer semelhança com os últimos capítulos da eleição não é mera coincidência. No prefácio da mesma obra, o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor de ética da USP, lembra que um número expressivo de membros da classe média ainda desqualifica os programas sociais consolidados nos últimos anos. “Para eles, o Brasil era bom quando pertencia a poucos. Assim, quando a multidão ocupa espaços antes reservados às pessoas 'de boa aparência', uma gritaria se alastra em sinal de protesto. O que é isso, senão o enorme mal-estar dos privilegiados?”, questiona. “A expansão da democracia incomoda. Daí um ódio que domina nossa política, tal como não se via desde as vésperas de um golpe de 1964, condenando as medidas que favoreciam os mais pobres como populistas e demagógicas”.

Em coro com Rancière, Janine Ribeiro lembra que a democracia não é um Estado acabado nem um estado acabado das coisas; ela vive constante e conflitiva expansão. “Porque a ideia de separação social continua presente e forte”.

Ao menos nas últimas semanas, esta ideia parece ter tomado proporções graves nas manifestações de ódio pelas ruas e redes sociais. Como se o mesmo país fosse pequeno demais para dois (para não dizer muitos) tipos de eleitores: um deve ser enviado a Cuba, o outro, a Miami; um deve ter o direito de voto cassado, o outro tem o direito apenas de calar. O não-diálogo é escancarado, sobretudo por quem costumava observar o espaço público como sua propriedade e hoje se rebela contra o "Estado protetor" e o voto "mesquinho" dos indivíduos. Mas a democracia, prossegue Rancière, longe de ser a forma de vida dos indivíduos empenhados em sua felicidade privada, é o processo de luta contra essa privatização, o processo de ampliação dessa esfera. "Ampliar a esfera pública não significa, como afirma o chamado discurso liberal, exigir a intervenção crescente do Estado na sociedade. Significa lutar contra a divisão do público e do privado que garante a dupla dominação da oligarquia no Estado e na sociedade”.
(http://www.cartacapital.com.br/politica/o-odio-a-democracia-7858.html)