sábado, maio 19, 2007

A perdição do poder

Por último, no mais recente lance trazido pela PF, na chamada Operação Navalha, como se fosse uma novela das oito para nós, "consumidores", sabemos que uma organização criminosa, ramificada por todo o país, mas tendo como centro e núcleo duro uma empreiteira baiana, a construtora Gautama, desviou, ao menos R$ 31,101 milhões dos cofres públicos nos últimos anos.
E quem ali está, indiciado, acusado, preso, por roubar (foto), ao receber dinheiro por obras que não realizou, tendo, em um dos casos, o valor desviado do Ministério das Cidades alcançado R$ 10 milhões?
Quem se via seduzido pela empresa Gautama, que coordenaria o esquema de fraudes nos Estados de Alagoas, Bahia, Goiás, Mato Grosso, Sergipe, Pernambuco, Piauí, Maranhão, São Paulo e no Distrito Federal?
Nada menos que o ex-governador do Maranhão e ex-ministro de Sarney, José Reinaldo Tavares (PSB), o filho do ex-governador João Alves Filho (DEM-SE), João Alves Neto, dois sobrinhos do governador Jackson Lago (PDT-MA) —Alexandre de Maia Lago e Francisco de Paula Lima Júnior —, além dos prefeitos de Sinop Nilson Aparecido Leitão (PSDB-MT) e de Camaçari Luiz Carlos Caetano (PT-BA).
E tem mais, pois a relação é extensa. Contam os jornais: "A operação também prendeu o deputado distrital Pedro Passos (PMDB), o funcionário do Planejamento Ernani Soares Gomes Filho cedido para o gabinete do deputado Márcio Reinaldo Moreira (PP-MG), além do assessor especial do gabinete do ministro Silas Rondeau (Minas e Energia) Ivo Almeida Costa e do superintendente de Produtos de Repasse da Caixa Econômica Federal Flávio José Pin. Também foram detidos o secretário de Infra-Estrutura de Alagoas, Adeílson Teixeira Bezerra; o diretor do Detran de Alagoas, Márcio Menezes Gomes.
A organização criminosa, com base na Gautama, que seria uma dissidência da OAS, empreiteira da Bahia, já famosa por envolvimento no passado com situações assemelhadas. "Para conseguir a liberação do dinheiro, a empreiteira teria pago, pelo menos, R$ 1,057 milhão para governadores, secretários de Estado, servidores públicos e prefeitos. O valor das propinas varia de R$ 56 mil a R$ 240 mil", contou a Folha de S. Paulo.

A perdição do poder

Por estas bandas, sabe-se, de ouvir falar, mas nada chega aos finalmente. Como a boataria em torno do prefeito de Guamaré, Dedé Araújo, que teria sido denunciado pelo promotor de Macau, Wilkson Vieira Barbosa Silva, que teria pedido o seu afastamento, tendo Dedé sete dias para se defender da emissão de cheques sem fundo.
Por estas bandas ouve-se falar. Em Macau, com base em documentação oficial, o próprio Orçamento de 2006 do município, de um total de R$ 62 milhões, sendo de R$ 67 milhões para 2007, descobre-se que pelo menos R$ 22 milhões previstos para obras no município não foram aplicados, já que as obras nunca foram concluídas e apresentadas aos munícipes.
Agora mesmo tivemos, na sexta-feira, a posse do procurador-geral de Justiça para o biênio 2007/2009, na pessoa do promotor de Justiça José Augusto de Souza Peres Filho, que atuação intensa e extensa voltada para a defesa do consumidor.
José Augusto Peres, que é professor de Direito do Consumidor na Escola da Magistratura e na Universidade Potiguar, e que tomou posse em solenidade das mais badaladas, com a presença de autoridades centrais dos três poderes, no Centro de Convenções, em Natal, escreveu, para o jornal o Poti, no domingo 16 de abril do ano passado, um dos textos mais contundentes acerca da situação que se vive no Brasil, a que intitulou "Cleptocracia, ou o governo dos ladrões" (foto).
Ali ele explicava que, "segundo uma das divisões tradicionais das formas de governo, estes podem ser monarquias, aristocracias ou democracias. Ou seja, o poder, no primeiro caso, é exercido com base no ‘direito’ de uma família; no segundo, o poder é exercido por uma elite (racial, econômica, religiosa); no terceiro, o poder é exercido pelo povo e por seus representantes. Também existem formas degeneradas de governo. A tirania, a oligarquia, a demagogia. São o exercício arbitrário e cruel do poder, o poder exercido por um pequeno grupo e o poder exercido, supostamente em nome do povo, fazendo promessas que não podem ser cumpridas. Mas não é de nenhuma dessas formas de governo que vamos falar. Trataremos aqui de uma outra, tão perversa e cruel quanto as demais. É a cleptocracia. O termo advém das palavras gregas "clepto" (tirar) e cracia (força, poder). Ou seja, é o poder dos que tiram, o poder dos ladrões."

A perdição do poder

Vejamos agora o que nós escrevíamos no artigo "A gloriosa posse de herr Papau", cuja íntegra se encontra no Observatório da Imprensa na data de 05.11.2000 (leia aqui), a fim de podermos refletir sobre nossa sina. De consumidores de notícias. Mas de consumidores bestas. Não de bestas como jumentos. Mas de bestas-feras, já que terminamos sendo sanguinários, maus e desumanos para com nós mesmos e com nossos conterrâneos, ao engolirmos calados tudo que vemos e assistimos no sinistro teatro de nossa política.
"O livro do jornalista Lucas Figueiredo, Morcegos Negros (Record), retrata as tramas da verdadeira organização criminosa que tomou conta do país à época do governo do presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992), sob o comando geral de um chamado Esquema PC, cujo cabeça era o empresário alagoano Paulo César Farias, ex-tesoureiro da campanha de Collor. No livro ficam evidenciadas as conexões do Esquema PC com o crime organizado internacional. O esquema faturou, segundo cálculos da Polícia Federal, nada menos que US$ 1 bilhão, sobressaindo-se a participação efetiva não só do empresariado e de autoridades, como de mafiosos italianos pertencentes a uma das maiores redes internacionais de narcotráfico.
"A ação desse grupo acabou envolvendo funcionários públicos, empresários, industriais, comerciantes e particulares num quadro de corrupção, concussão, exploração de prestígio, extorsão e usurpação de função, entre outros crimes, com total desapreço aos princípios que regem a administração pública", documenta o inquérito-mãe do caso PC Farias transcrito por Figueiredo.
"Na verdade, diz no prefácio o jornalista Clóvis Rossi, o que se revela é o resultado "da ocupação do poder – de todos os espaços possíveis de poder – pela máfia". Rossi adverte, em tom melancólico: o livro não se constitui numa espécie de peça de arqueologia jornalístico-literária, que revisita idos de um passado distante. "Trata-se de uma espécie de dissecação das entranhas de um sistema de poder apodrecido ao ponto do inimaginável." E complementa, como um aviso: "Não é o Brasil de ontem que está retratado no livro. É um Brasil ainda muito presente." Uma trama, diz Rossi, que aponta, ao final, para a impunidade generalizada, a incompetência, má vontade ou falta de recursos para se investigar o que quer que seja no Brasil, e para a complacência com a criminalidade e a convivência de empresários, supostamente homens de bem, com esquemas inequivocamente mafiosos.
"Veja-se o processo de indicação, como conselheiro do venerando Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte (TCE), do irmão do governador Garibaldi Alves Filho, o ex-secretário de Governo Paulo Roberto Chaves Alves (Papau). Ele desnuda o paradigma da política no RN. Dentro da engenharia do sistema governista, Papau seria lançado como deputado federal, diz o Diário de Natal de 1º de novembro. Para acomodar parentes que disputarão cargos eletivos em 2002, indicou-se o conselheiro Nélio Dias, que requereu aposentadoria, ganhando, em troca, a Secretaria da Agricultura e a oportunidade de candidatar-se à Câmara Federal."
Voltando ao presente, aguardemos os 800 estudantes e especialistas de Direito que estarão em Natal de quinta-feira até sábado próximos, dias 24 a 26, quando discutirão temas relativos ao direito, com enfoque para o direito constitucional, penal, administrativo, processual e econômico. É objetivo do encontro contribuir para a formação de juristas, ao mesmo tempo em que tenta iluminar as questões que dizem respeito às políticas públicas que são adotadas pela nossa administração pública nos três níveis de governo.

Marrocos: o herói da resistência na MPB

Paulo Augusto
Quem reconhece a importância da Música Popular Brasileira compreende perfeitamente a afirmativa de Mário de Andrade, no "Ensaio sobre a música brasileira", quando dizia que "O brasileiro é um povo esplendidamente musical".
E esta assertiva ganha toda a sua aura de verdade cristalina quando se encara esta atividade como uma das mais poderosas formas de comunicação do homem brasileiro, em especial nas lides dos poetas e letristas, compositores e músicos, que desenharam para a coletividade brasileira um espaço social privilegiado, onde a democratização do acesso é efetivamente uma realidade.
E este acesso é agora viabilizado pelo poeta, compositor e cantor macauense Marrocos (foto), ao lançar, na próxima sexta-feira, dia 25, no Bar do Coelho (Cidade Alta, por trás do Convento Santo Antônio), o CD "Aquelas Antigas...", reunindo 14 sucessos do melhor da verdadeira Música Popular Brasileira. "A escolha das músicas não foi tão difícil. Difícil foi a aceitação, pelo fato de que todos os CDs que eu gravo tem minhas composições. Mas este, pela primeira vez, é um trabalho inédito, pois vem sem as minhas composições. Reúne só gente graúda: de Tom Jobim a Dolores Duran, de Evaldo Gouveia a Paulo Vanzolini, de Lupicinio Rodrigues a Ary Barroso. E por aí vai", diz Marrocos, que produziu o CD na sua própria casa, em estúdio improvisado, com o que vem sobrevivendo e trazendo alegria para milhões de corações irmãos.
Para se ter uma idéia da relevância do CD "Aquelas Antigas", que resultou de uma reflexão madura e, portanto, aguda e penetrante, depois de mapear, sistematizar e discutir consigo mesmo e com amigos o vasto universo da nossa MPB, vale a pena registrar o que contém a pequena obra assinada pelo compositor-microempresário.
O CD contém, nada mais, nada menos do que 14 jóias selecionadas dos seguintes compositores:
Tom Jobim ("Por causa de você"), Dolores Duran ("A noite do meu bem"), Evaldo Gouveia e Jair Amorim ("Alguém me disse"), Paulo Vanzolini ("Ronda"), Waldick Soriano ("Tortura de amor"), Sidney da Conceição, Lourenço e Augusto Cesar ("Os amantes"), Adelino Moreira ("A volta do boêmio"), Nazareno de Brito e Fernando Cesar ("Esquecimento"), Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves ("Quem há de dizer"), Haroldo Barbosa e Luís Reis ("Meu nome é ninguém"), Eduardo Lages e Paulo Cesar Pinheiro ("Momentos eternos"), Tom Jobim e Dolores Duran ("Por causa de Você"), Ary Barroso ("Risque"), Jayme Florence e Augusto Mesquita ("Molambo") e J. Ribamar e Dolores Duran ("Ternura antiga").

Marrocos: o herói da resistência na MPB

No seu atual trabalho, o cantor e compositor José Marrocos da Silva, conhecido apenas como Marrocos, nascido em 23 de outubro de 1949, na cidade de Macau/RN, mostra toda a potencialidade que adquiriu na sua trajetória artística, que o levaria aos lugares mais díspares do nosso país. Membro efetivo da ABRAC (Associação Brasileira de Autores e Compositores), reconhecido por seus pares como um artista e uma personalidade da MPB que "inventou" o seu lugar no cenário da nossa música, Marrocos, como grande parte de nossos artistas potiguares, continua sem receber a consideração e o respeito que merece da parte de nossa oficialidade, o que seria extravagante ou excêntrico de se ponderar.
O trabalho atual de Marrocos deve ser estimulado e compreendido, na medida em que ele se debruça na tentativa de resgatar as preciosidades do nosso cancioneiro, quando traz para o mercado nomes e canções que estavam momentaneamente esquecidos, personalidades que representam um marco em nossa História, mas pouco tocados pela curiosidade e pelo interesse do mercado, desconhecidos em especial pelas novas gerações.
Marrocos trabalha, com a sua gravadora caseira, que podemos chamar de "fundo de quintal", na faina de distinguir, valorizar e recuperar todos aqueles que labutaram e hoje pelejam para fazer valer nossa cultural musical. Ele respalda o combate de nossos criadores, ao elaborar e projetar o universo de símbolos garimpados no nosso imaginário social, através do milagre da música.
São tesouros, repletos de sons, de versos, com narrativas cotidianas sobre personagens que embalaram e acompanham de forma permanente a vida do povo brasileiro, trazendo em suas exposições convertidas em cifras as situações que envolvem os mais multiformes estados da alma. Desde os delicados e prosaicos casos de amor até as batalhas pela sobrevivência, interpretadas através de reivindicações políticas. Na sua entrevista abaixo, Marrocos conta um pouco da sua luta, reinventando, através de seu labor, os traços mais essenciais dos poetas da canção popular do nosso Brasil.

Esperando o trem do Seis & Meia

Paulo Augusto - Para lançar o CD "Aquelas antigas" você fez uma escolha a partir do que você sabe que o seu público gosta, né isso?
Marrocos (Foto) - Exatamente.
Paulo - Você está se apresentando no Bar do Coelho, que já é tradicional por abrigar uma famosa seresta. Mas tem outros lugares onde você canta?
Marrocos - Todo final de semana eu estou dando uma palinha lá. Chegando junto lá com o pessoal.
Paulo - Tem algum programa de rádio onde você se apresenta? Tem algum projeto de rádio? Como estão seus projetos de divulgação?
Marrocos - É, eu estou aguardando William Collier até hoje. Ele me disse para passar lá na terça-feira, para agendar a data do Projeto Seis & Meia (no Teatro Alberto Maranhão). Agora deve sair, com certeza. Ele ligou para mim dizendo que estava na Paraíba, que eu aparecesse lá para conversar com ele.
Paulo - Ele já falou com qual cantor nacional você se apresentaria?
Marrocos - No projeto dele era com Evaldo Gouveia.
Paulo - Me conte sobre o circuito onde você se apresenta, mesmo fora de Natal. E em Natal, onde é que você se apresenta mais?
Marrocos - Em Natal, só com contrato. No Bar do Coelho eu vou mais porque eu tenho esse trabalho paralelo, que é de gravações. Então as pessoas encomendam, fazem encomendas de (regravar de) vinil para CD, então eu vou ali para fazer essas entregas, e aproveito dou uma canjinha lá para eles. Mas aqui tem diversas casas, como a AABB, o (hotel) Residence, são lugares onde eu posso me apresentar.
Paulo - Nos bons tempos, no seu auge, você estava com qual conjunto? Já era esse grupo musical Novos Rumos?
Marrocos - Era o Novos Rumos. Sempre foi o Novos Rumos. Algumas pessoas desse grupo já morreram.
Paulo - Quem fazia parte, diga os nomes deles?
Marrocos - Hoje estão Zeno Lima, que é o cavaquinho; tem Jorge Sete Cordas, que é o violão de sete cordas; tem Gaspar, mais conhecido por Cabo, que é o violão de seis cordas; tem Zagueirão, que faz a percussão, com a timba. E tem Bossa, no pandeiro. Bossa é uma figura bastante conhecida. Aquele que você viu lá em Macau, cheio de muganga.

Esperando o trem do Seis & Meia

Paulo - Vamos falar do seu trabalho. Você já vem fazendo há algum tempo? Como é esse trabalho?
Marrocos - Aqui eu faço a gravação. Nós preparamos os playbacks [acompanhamento musical previamente gravado que se usa como base para a interpretação de um solista (vocal ou instrumental)] e gravamos ao vivo aqui. Já gravamos bastante, de pessoas conhecidas, como o desembargador Caio Alencar, do doutor José Petit de Carvalho, da cantora Ivete. Muita gente tem gravado aqui. Afora os evangélicos, que eu não gravo o nome.
Paulo - Como é o processo?
Marrocos - Aqui, nós preparamos os arranjos, preparamos a música, fazemos o playback, a pessoa vem e coloca a voz, aqui. Fazemos a tiragem, de quantos (exemplares) forem necessários, é feita aqui também, a reprodução.
Paulo - Tem dado certo? Eles gostam do resultado? Não prejudica ser sem um estúdio com acústica, um ambiente fechado?
Marrocos - Muito bom. Inclusive, este último agora, do desembargador Caio, foram 500 cópias. O nome do CD é "Nossos Momentos", de Caio Alencar, foram 300 cópias. E o segundo, que é "Reencontro", que terminamos de gravar agora, foram 500 cópias. Ele gosta de seresta e dessa música popular brasileira, raízes mesmo da MPB.
Paulo - A qualidade é boa?
Marrocos - Este é meu trabalho comercial. Faço um trabalho e a qualidade é considerada boa, pelos grandes críticos daqui, como Guaraci Picado, que é uma figura que tem estrada, andou pelo Rio de Janeiro e tudo, Paulo Tito, que foi diretor da CBS, que elogia demais, não sabe como é que eu consigo fazer, num trabalho caseiro destes, uma gravação tão perfeita. O estúdio da gente aqui é no computador, são os programas do computador. Dali é que a gente extrai a qualidade.
Paulo - E os contratos no interior. Você ainda foi a Macau?
Marrocos - Todo mundo sabe como é a minha ligação com Macau. Nunca mais. Não me convidaram mais. Até agora, não. Uma coisa que eles fizeram, que foi uma ação, foi comprar 150 cópias. A prefeitura comprou do CD anterior, "Natal, Paisagem do Amor", uma música minha. Acho que eles compraram também porque tinha a música "Macau, a História te proclama", que é a música que eu fiz com a cidade de Macau.
Paulo - E as pessoas para lhe contatar, ligam para qual telefone?
Marrocos - O telefone é o 9975-4759.

Livro de Ouro Familiar

A chegada do "Livro de Ouro Familiar", que o escritor potiguar Alcides Francisco Vilar de Queiroz acaba de lançar, no Rio de Janeiro, acrescenta mais uma pepita ao verdadeiro tesouro que ele vem construindo ao longo das últimas décadas, na elaboração de um portentoso monumento à memória do Rio Grande do Norte. Como afirma o autor, o seu desejo maior é que os exemplos de vida reunidos na obra, nomes por ele escolhidos e pesquisados, num universo que soma 54 pessoas notórias de diversas genealogias potiguares, "sejam tomados como lições de vida para as atuais e as futuras gerações".
Alcides Vilar de Queiroz, que dedicou parte de sua vida, em especial o período da adolescência e juventude, ao labor teológico, dedicando-se à ciência das religiões, "num tempo de rígida reclusão e absoluta clausura", como ele mesmo assinala, aprimorou, por isto mesmo, sua aptidão para o trato com as levezas e sutilezas da memória, daí sua exímia capacidade de produzir verdadeiros baús de preciosidades memorialísticas. Alcides vem oferecendo ao leitor do Rio Grande do Norte, em especial, e a todo o Brasil, com seus livros, a oportunidade de se debruçar sobre a origem das famílias, ao pesquisar o conjunto de nossos antepassados.
Neste livro, em especial, ele se volta para pessoas que ofereceram de si exemplos que sirvam de modelos, em virtude de dedicarem suas vidas à cidadania brasileira, à dignidade das pessoas, com ações propícias ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento moral, quer dos indivíduos, quer da comunidade.
Lamenta, por isto mesmo, não ter fixado residência por mais tempo em Natal (RN), onde poderia ter garimpado um número maior de vidas e de troncos familiares, oferecendo uma obra mais vasta do que a que já possui publicado. Por ter saído do Rio Grande do Norte aos dezoito anos, "imediatamente partiu para rumos mais distantes, em busca da construção de uma nova vida, de um futuro", como ele explica na introdução. Daí, portanto, "as lacunas certamente existentes no presente trabalho são, por este motivo, justificadas e, acredita-se, não tirarão o brilho daqueles que aqui figuram", explica-se.
Informa o autor no texto introdutório: "Este livro busca manter viva na memória de todos a lembrança daquelas pessoas que podemos orgulhar-nos e que estão associadas aos grupos Villar, Queiroz e Barroca. Encontram-se aqui anotações diversas de quantos se destacaram ou se destacam por suas ações no passado ou no presente, quer pelas posições que, merecidamente, foram ou são por elas desempenhadas, como também quantos optaram por seguir os caminhos do bem. Além das anotações que já apareceram nos livros "Villar & Cia", 1 e 2, juntam-se aqui os nomes de 54 outras pessoas notórias da família."

Livro de Ouro Familiar


Dentre as obras que já colocou no mercado, no filão a que se dedica e que hoje compreende um verdadeiro manancial de informações imprescindíveis aos estudos genealógicos potiguares, como obras de referência, encontram-se os volumes "Villar 7 Cia - Apontamentos de história familiar (Natal, 1998, 256p.); "Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros - O Apóstolo da Esperança" (Natal, 2000, 134p), em co-autoria; "Histórias íntimas de São Bartolomeu do Esculacho" (Rio de Janeiro, 2000, 182p.); "Villar & Cia - Apontamentos de história familiar - Vol. 2 (Rio de Janeiro, 2003, 352p.); e "Histórias de fazer Boi Bumbar" (Rio de Janeiro, 2004, 90p.).
No caso de "Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros - O Apóstolo da Esperança", Alcides discorre acerca da figura do falecido monsenhor Expedito Sobral de Medeiros, pároco de São Paulo de Potengi, que colocou como prioridade na luta de toda sua vida a distribuição da água escassa no estado do Rio Grande do Norte, que tem 92% do seu território no semi-árido, sendo 64% nas estorricadas terras de extrema aridez, com pedra aflorante, nas quais se equaciona o absurdo de, para 600 milímetros de chuva, a evaporação desperdiçar quase o triplo, raspando as reservas.
A última grande obra de Monsenhor Expedito Sobral (Foto no site
www.monsexpedito.cjb.net), nascido em São Rafael/RN a 13.12.1916 e falecido em Natal em 16 de janeiro de 2000, no campo social, foi aglutinar os homens públicos, convocando desde o governador, a parlamentares, prefeitos e as comunidades flageladas pelas secas, para, utilizando-se da força moral da Igreja, conseguir uma solução imediata e duradoura para o abastecimento de água às localidades do interior.
Com seu temperamento obstinado, carismático e duro, monsenhor Expedito passava carão nos políticos vadios e lançava mãos de truques imaginosos, como o de reunir prefeitos, deputados, vereadores para longos debates de horas no pico do verão sem mandar servir um copo dágua. E explicava o recado didático: ‘’É para esses políticos aprenderem o que é a sede que o povo padece’’.
No "Livro de Ouro Familiar", Alcides retrata, por ordem alfabética, pessoas das famílias Aguiar, Albuquerque, Amorim, Antunes, Araújo, Bakker, Barbosa, Bento, Bezerra, Bizarria, Bolshaw, Campos, Carvalho, Carrilho, Castro Cortez, Cavalcanti, Cirne, Colares Moreira, Couto, Dantas, Dantas Ribeiro, Dias, Duarte, Emerenciano, Fagundes, Fernandes, Fonseca, Gaspar, Godoy, Gouveia, Guerreiro, Gurgel, Holanda, Leiros, Lemos, Lisboa, Magalhães, Mamede, Medeiros, Meira, Mesquita, Moura, Nascimento, Oliveira, Pegado, Pereira, Pinto Queiroz, Raposo de Mello, Rocha, Sá, Sales, Sena, Silva, Sobral, Suassuna, Tavares, Torres, Varela, Vasconcelos, Viana, Villar.

Retratados orgulham clãs potiguares

(Introdução do livro)
Ao idealizar este livro, pensou o autor em divulgar para os mais novos e preservar para as gerações futuras apontamentos biográficos de parentes que marcaram e marcam suas épocas ou nelas se constituíram em destaques, forma talvez a mais simples de montar uma história familiar e de mostrar que houve e há exemplos a serem seguidos e pessoas de que podemos orgulhar-nos.
Muitos nomes possivelmente podem ter sido esquecidos ou simplesmente não constam mais dos registros e lembranças, e perdoem os eventuais leitores por tais omissões, devidas em alguns casos, ou na sua maioria, ao fato de ter-se mantido o autor desde cedo distante de sua terra e do convívio familiar, convívio este que lhe teria proporcionado, certamente, uma visão mais completa dos fatos e das pessoas. (Explica-se: aos 10 anos ingressou quem escreve estas linhas na vida religiosa - num tempo de rígida reclusão e absoluta clausura - e, ao sair dali, aos dezoito anos, imediatamente partiu para rumos mais distantes ainda, em busca da construção de uma nova vida, de um futuro). As lacunas certamente existentes no presente trabalho são, por este motivo, justificadas e, acredita-se, não tirarão o brilho daqueles que aqui figuram.
Ao falar-se acima em pessoas que foram destaques no seu tempo, na sua área de atuação ou no seu meio, não se pensou em apontar quantos (ou só aqueles que) ostentaram riquezas, acumularam bens, ou desfrutaram de posições de realce. Alguns dos que aqui figuram são mostrados apenas pelas virtudes da bondade, da simplicidade exemplar, ou pela prática continuada de boas ações. Não esperem os leitores encontrar neste livro biografias completas de todas as pessoas enfocadas, mas, em muitos casos, registros simples, ou seja, as anotações que foi possível colher.
Diferentemente de uma pesquisa genealógica - onde os vínculos de consangüinidade são pré-requisitos para estabelecer-se a cadeia familiar - no presente caso, os laços de parentesco, em qualquer nível, mesmo que por afinidade ou decorrentes de uma vinculação distante, foram considerados.
Um exemplo do que se diz acima: Miguel Antônio Pinto Guimarães, Barão de Santarém, teve uma neta, Anésia Pinto Guimarães Bastos, que se casou com José Augusto Meira Dantas, trineto do Barão de Mipibu. Consultando-se o quadro apresentado adiante, ver-se-á que tal casamento se tornou um elo de ligação entre as famílias de ambos os barões e, conseqüentemente, com a do Barão de Ceará-Mirim, ampliando consideravelmente o nosso universo familiar.
Um comentário que merece ser feito tem a ver com a grafia de alguns nomes. Quando estava o autor pesquisando para levantamento de dados, foi "repreendido", por amiga muito ilustre e merecedora da maior consideração, em razão da grafia usada na transcrição de nomes de pessoas mais antigas. O autor chegou a corrigir alguns deles mas depois, analisando friamente o caso, parou com tal correção, pois o argumento usado se referia à reforma ortográfica de 1971. A pergunta que se fazia era: aqueles que faleceram antes de tal reforma e que têm os documentos a si referentes grafados da maneira antiga estariam sujeitos às novas regras? Um exemplo: caso se quisesse juntar ao texto relativo a Jacinto Inácio Torres Júnior (nome com grafia atualizada) cópia autêntica de alguma certidão original do mesmo, não geraria confusão vê-lo mencionado como Jacyntho Ignácio? Pergunta-se o autor: se ele faleceu e consta de seu atestado de óbito como Jacyntho Ignácio, estaria sujeito a tal modernismo? O autor chegou a ‘corrigir’ alguns nomes mas depois desistiu. (Que alguma eventual falha mereça o perdão do leitor.)
Além do quadro já mencionado, mostra-se um outro em que serão apontados descendentes do Barão do Ceará-Mirim. Novas informações forma passadas ao autor após a sua conclusão - e que, por isso, não puderam ser nele incluídas (ou checadas) - e que transcrevemos a a seguir:
Duas observações merecem ser feitas ao final desta Introdução:
1) Mário Duarte, considerado por todos como o melhor programador visual em atividade e o mais brilhante designer gráfico, brindou o autor deste livro com a linda capa que o envolve. Tem mais: vejam os primores dos quadros que acompanham esta Introdução e que ele, consultado sobre a sua redução para uma página, os refez de forma tão bonita. 2) O autor agradece aos amigos Cláudia Muniz e Jorge Luiz Morandi pela eficientíssima colaboração. (Matéria do caderno de cultura Encartes (Jornal de Natal) de 14 de maio de 2007)